SOBRE ESCREVER PERSONAGENS BISSEXUAIS

SOBRE ESCREVER PERSONAGENS BISSEXUAIS


Vamos começar do começo e falar o básico.

Escrever um personagem bissexual (serve também para sexualidades monodissidentes no geral… mas aqui vou falar sempre bissexual, porque é a minha comunidade) é completamente diferente de escrever um personagem monossexual (gay, lésbica ou hétero). E é justamente aqui que nascem a maioria dos problemas que eu já encontrei em personagens bissexuais.

Para começar, vamos falar um pouquinho de escrita em si?

Eu sempre bato nessa tecla: as pessoas são diferentes, lidam com o mundo de jeitos diferentes e são lidas pelo mundo de jeitos diferentes. Os conflitos que envolvem a vida de um rapaz bissexual não são os mesmos conflitos que envolvem um rapaz gay. As opressões não são as mesmas. As relações não são as mesmas.

Parece que estou falando o óbvio, mas é no óbvio que moram os grandes equívocos na representação bissexual.

Deixe o leitor SABER que seu personagem é bi

A melhor maneira de fazer isso é mostrando que o personagem é bi, a segunda é dizendo. Se puder fazer as duas coisas, melhor ainda. Mas, às vezes, o “dizer” não cabe na história e está tudo bem, se você conseguiu mostrar direitinho, vai ficar show (apesar de, no futuro, ser complicado para o leitor definir o personagem como bi e não pan, por exemplo).

Ao pensar o seu personagem, você define características que ele vai carregar durante a história: cor de pele, tipo de corpo, se é humano, qual o gênero, qual a cor do cabelo, se tem cabelo, qual a cor do olho, a profissão, o estilo. A sexualidade do personagem também deve ser definida assim. Sabe por quê? Porque todas essas características compõem quem seu personagem é desde o começo.

Dá para mudar de ideia no meio do caminho? Sempre dá. Você pensou um personagem hétero, mas durante a escrita viu uma necessidade de que ele seja bi, ok. Você sempre pode voltar no começo e reconstruir o personagem. Porque é isso que ele é: um personagem. Não é uma pessoa, é a representação de uma. Alguém que você pode e deve moldar.

“Mas eu não posso só seguir o baile e fazer o personagem bi do meio pra frente?”

Uai, poder pode. Você pode tudo. Mas eu peço para que volte um pouco neste texto e veja o que foi dito no começo: a sexualidade influencia na forma como as pessoas vêem o mundo e na maneira como o mundo trata as pessoas. Mesmo que seu mundo seja fantástico, em alguma coisa ele imita o nosso, em algum momento.

Ok, isso vale para qualquer tipo de representação. Vamos falar apenas da bi?

Escrever personagens monossexuais tem um facilitador, na minha opinião: as pessoas sempre presumem que uma mulher que está beijando outra mulher é lésbica, e que um homem amando outro homem é gay. As pessoas não binárias? Que lutem.

Então, se você tem um personagem gay, basta mostrar minimamente que ele se interessa pelo mesmo gênero e pronto (e, lógico, levando em conta o que já citei acima de mostrar como a sexualidade molda o personagem dentro de um contexto e etc).

O personagem bissexual não. É necessário ser dito e, preferencialmente, reforçado que ele NÃO é monossexual.

Oi, eu sou bi.

É impossível escrever um texto desses sem falar de bifobia. E, como bem diz Nick Nagari neste texto, a bifobia vai além de dizer que uma pessoa bissexual está confusa.

Nós vivemos em uma sociedade onde a monossexualidade é vista. As pessoas conseguem enxergar o hétero, o gay ou a lésbica (não estou dizendo que pessoas LG não sofram com opressões próprias, mas esse não é o assunto do texto, ok? Então ok). A primeira leitura que fazem quando eu digo que tenho uma noiva é que sou lésbica. Isso vai acontecer com seu personagem.

“Mas, Maria, eu não tenho como falar que meu personagem já se relacionou com mais de um gênero (porque não é relevante pra história, porque ele nunca se envolveu com mais ninguém, ou por qualquer motivo que for).”

Tá, então me responde uma coisa: o que faz o seu personagem ser bi?

É isso o que deve ter na sua história.

Não faz sentido algum na sua cabeça o personagem ser bi e na história não. Pra que você quer que ele seja bi se não for para torná-lo VISÍVEL?

Então, mostre e diga.

Mostre que ele se interessa por pessoas de gêneros diferentes, mostre que ele tem orgulho de ser bi, mostre que ele tem conflitos, questionamentos, atitudes; mostre que ele vê beleza no outro independente de gênero, mostre que ele se interessa por pessoas. Sua história pode não girar em torno de um romance, mas existe pelo menos o mínimo de relacionamento interpessoal (ou até mesmo um relacionamento interno do personagem com ele mesmo). É possível falar sobre ser bi sem precisar dizer que é bi.

Mas se, depois de tudo isso, o personagem ainda dizer é melhor ainda.

Sabe por quê? Porque dá visibilidade.

Eu gosto de subjetividade, gosto de coisas deixadas nas entrelinhas, mas quando estamos falando de algo que clama por ser visto, é necessário mostrar.

Não faça a J.K.

“Ah, não tenho espaço na história, pois ela é curta”.

Se não tem espaço para mostrar que um personagem é bissexual, pra quê você quer fazer um personagem bissexual? Entenda: as pessoas não vão naturalmente ler seu personagem como bi, elas não vão. A sociedade nos invisibiliza o tempo inteiro, você não precisa fazer isso também.

“Ah, minha história se passa em um universo diferente ou em um mundo fantástico, como vou colocar o personagem dizendo que é bissexual?”

Olha… você criou um mundo inteiro, um mundo inteirinho, criaturas fantásticas, poderes especiais, viagens no tempo, dá pra você colocar “oi, sou bi” na boca do seu personagem. Você sabe que dá!

Aposte sempre nas nuances. Bons personagens são assim: cheios de problemas, conflitos, desejos, paixões… E, veja que interessante: tudo isso se manifesta em uma pessoa bi de um jeito diferente do que em uma pessoa hétero ou homo. Quer saber como? Aí você vai ter que conversar com pessoas bissexuais, seguir pessoas bissexuais, ouvir pessoas bissexuais, ler pessoas bissexuais. Mesmo que você seja bi, o contato com outras vivências da sua comunidade pode te ajudar a entender até quem você é.

Mas meu personagem se relaciona com alguém de um gênero diferente…

E daí, jovem?

Bissexuais fazem isso mesmo. Alguns não, mas podem fazer. Eu mesma namoro uma pessoa do mesmo gênero que eu. Mas minha amiga Bia namora com alguém de outro gênero. Sabe quem é mais bi? Isso mesmo: NÃO EXISTE UM RANKING DE BISSEXUALIDADE.

Entenda: se alguém criticar seu livro só porque o personagem bissexual terminou a história com alguém de outro gênero, bem… a pessoa estará sendo bifóbica. Ser parte da comunidade LGBTQIA+ vai muito além de se relacionar com pessoas do mesmo gênero.

Não precisa ter esse peso na consciência, gerado por uma sociedade bifóbica, de que ser personagem bi precisa estar em um relacionamento homoafetivo para ser validado. Isso é só a bifobia gritando no seu ouvido.

E, para fechar, eu amo o Renato Russo, inclusive citei “Meninos e meninas” em As razões de Henrique. Mas… não existem só meninos e meninas, e a bissexualidade NÃO é binarista, portanto, não escreva um texto binarista.

Boa noite.