AS COISAS QUE EU APRENDI ESCREVENDO PERSONAGENS NEGROS: de uma autora branca para outros autores brancos

AS COISAS QUE EU APRENDI ESCREVENDO PERSONAGENS NEGROS: de uma autora branca para outros autores brancos


Eu sou branca, vamos começar com o óbvio porque ele guia todo o resto. Eu sou branca e escrevo ficção sobre pessoas não-brancas (e brancas também).

POR QUE eu faço isso? Essa é a grande pergunta.

A primeira e mais honesta resposta é: porque eu QUERO. A escrita me sustenta e eu preciso agir seguindo aquilo o que me guia. Eu quero escrever sobre pessoas negras porque elas EXISTEM, eu convivo com elas, eu as vejo.

A segunda resposta, aquela mais difícil de alcançar é: eu escrevo porque PRECISO. Porque, pra mim, é impossível criar uma história minimamente verossímil se nela não existir pessoas não-brancas.

O grande ponto dessa questão é: COMO eu escrevo pessoas não-brancas e COM QUAL FINALIDADE.

Eu já pensei, no meu nocivo egocentrismo branco, que eu escrevia protagonistas negros porque "oh, meu deus, não tem protagonistas negros na literatura". E a verdade era que não tinha protagonistas negros nas coisas que EU lia.

Então, sim, já escrevi personagens negros me achando a própria salvação da negritude literária (veja bem o nível de ego do ser humano).

Hoje eu, felizmente, leio mais, ouço mais, vejo mais, acompanho mais.

E o que isso mudou na minha escrita? TUDO. Tudo, gente. Acho que dá para ficar aqui o ano inteiro falando sobre isso. Mas vou tentar resumir.

O QUE EU, COMO BRANCA, APRENDI ESCREVENDO PERSONAGENS NEGROS:

1- Que, antes de tudo, é mais importante ajudar a mostrar que existem pessoas negras (autores incríveis, por sinal) escrevendo sobre pessoas negras e outras coisas, do que eu mesma querer escrever "por elas".



2- Que eu SEMPRE vou escrever partindo do meu lugar, da minha visão de mundo, das coisas que me compõem como pessoa. E tudo isso é branco. Eu não sei e nunca vou saber o que é ser negra. Então, como escrever um narrador/protagonista negro?

a) Escrevendo, uai. Com medo (leiam esse texto da Solaine Chioro, aliás leiam todos os textos e livros da Solaine), errando, pesquisando, errando, corrigindo, tremendo, perguntando "amiga, esse trecho aqui tá terrível?" e ouvindo "olha…". E reescrevendo. Mas, antes de tudo, LENDO.

b) Mas pra quê que você quer escrever um protagonista negro? Essa é a pergunta que você tem que responder, amigão.

"Maria, eu posso falar sobre racismo no meu livro, no ponto de vista de uma pessoa negra?" Poder você pode tudo, amor. Mas é melhor que você OUÇA. Pra que você vai falar sobre racismo se você pode pegar o livro de alguém negro que já está falando sobre racismo e divulgar?

3- Que escrever personagens brancos de pele escura não é escrever personagens negros.

Pois é, galera linda, vou falar o óbvio (um óbvio que eu demorei a perceber). As pessoas são DIFERENTES.

A minha vivência como pessoa branca é diferente da vivência de uma pessoa negra, a forma como eu vejo o mundo e como o mundo me vê, a maneira como sou tratada, escolhida, abordada, é diferente. Se eu ando na rua, é diferente. Se estou procurando um emprego, é diferente. Se estou em um relacionamento, é diferente.

E essas diferenças refletem na forma como eu falo, como eu ando, como eu me visto, como eu me enxergo, como eu me relaciono.

Então, na hora de escrever, de ambientar o mundo ao redor do seu personagem negro, de descrever os gestos, falas e pensamentos dele, você simplesmente NÃO pode usar a SUA visão de mundo como base.

É até simples, vamos lá!
Descreva quatro cenários:
- Um homem branco narrando a si mesmo andando sozinho na rua de madrugada.
- Agora, uma mulher branca na mesma situação.
- Agora descreva o mesmo cenário só que com um homem negro, depois uma mulher negra.

Você descreveria da mesma forma? Isso mesmo, NÃO.

P.S.: Você NÃO precisa descrever uma abordagem policial violenta para mostrar essa diferença, viu? Pensa aí: PRA QUE você branco quer escrever sobre o sofrimento de uma pessoa negra? Fica aí a reflexão, lindo.

Não precisa escrever um monólogo sobre racismo para mostrar o quanto a raça interfere em todos os níveis de relação humana. E, POR FAVOR, você NÃO precisa usar de agressões verbais ou físicas racistas para mostrar o quanto o racismo é nocivo. Não cometam o meu erro.

4- A vivência de UMA pessoa negra não é universal. Para de se esconder atrás daquele seu amigo que te valida e valida as coisas que você escreve. Mesmo que 100 leitores negros seus não percebam um problema, se UM perceber e apontar, você precisa PARAR e ESCUTAR.

5- Você não é uma pessoa horrível porque tentou e falhou. Nós brancos somos muito sensíveis, né? (pena). Saiba, amor, que NINGUÉM PRECISA DA SUA CULPA BRANCA. Supera e vai em frente. Errou? Não erra mais. Continua tentando e para de usar seu erro como desculpa para nunca mais escrever personagem negro.

6- O livro DE uma pessoa negra é mais importante que o seu livro SOBRE uma pessoa negra, branco. Aceite. E cabe a você, que é tãaaao legal e anti-racista, divulgar o livro do colega. Só escrever sobre pessoas negras NÃO é suficiente. O mundo precisa de mais ESCRITORES negros sendo lidos.

7- Pelo amor de Deus, manda esse livro pra leitura sensível. Você pode achar que fez tudo certo, mas eu te garanto que você NÃO FEZ. Mande o livro pra leitura sensível e, EM NOME DE JESUS, ouve o que a pessoa apontar.

Muita coisa aqui vale para qualquer pessoa querendo escrever sobre uma minoria a qual não pertence. Mas eu sugiro que você não pegue nada disso como regra, essa é a MINHA EXPERIÊNCIA. Vai ouvir as pessoas das outras minorias, vai seguir, vai consumir e apoiar o conteúdo, vai ler. Tá bom? Então tá bom.

P.s.: eu errei em TODOS os meus escritos sobre pessoas negras. TODOS ELES. Estou longe de ser o exemplo de "boa escritora branca" e eu nem sei se isso existe.

Grata pela atenção.

DICA: Siga o perfil @afroliteraria no Twitter e vai ler autores negros.