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Capítulo 11

Cobra

Emma está demorando demais.

Tipo, demais mesmo.

Trix anda de um lado para o outro na cabana. Ela já está quase completamente estável aqui, ninguém notaria a diferença entre ela e qualquer outra pessoa. Exceto pelas íris que continuam roxas-neon.

— Como é lá na sua dimensão? — Tento puxar papo para descontrair.

— Uma bagunça. Elegemos um presidente que poderia facilmente ser substituído por um pedaço de cocô.

— Aqui também.

— Mas vocês não têm coronavírus, quarentena e economia quebrada.

— Lamento dizer que temos a economia quebrada. — Escoro na árvore que serve de parede. — Mas eu quero saber da sua vida.

 

— Não tem nada muito interessante para saber. — Ela finalmente aquieta e se senta. — Minha vida é super comum. Comecei a fazer odonto esse ano, bolsa integral na faculdade. Moro sozinha em uma quitinete ridícula de pequena. Meu único amigo mora com o namorado em outra cidade. Eu e esse namorado dele não conversamos desde que brigamos em 2017. Éramos três amigos inseparáveis. E duvido que alguém realmente esteja sentindo a minha falta.

— Nossa… Mas e os seus pais?

— Meu pai largou a gente e foi embora pros Estados Unidos ilegalmente quinze anos atrás. Eu tinha quatro anos, mal me lembro dele. Minha mãe morreu quando eu tinha nove. Aí eu passei a morar com uma tia, irmã do meu pai, que não via a hora de se livrar de mim.

Não sei o que responder. Trix fala de um jeito tão natural e seco, como se não se importasse com nada disso, mas eu sei que se importa.

— Falei demais, né?

— Não. Eu só não soube o que dizer.

— É que faz tempo que não converso de verdade com alguém. Eu só postava coisas no Twitter e arrumava briga. Às vezes encontrava um crush ou outro para passar o tempo. A quarentena me deixou meio perdida. Era para eu estar aproveitando o primeiro ano de faculdade para conhecer novas pessoas. Mas veio essa porcaria de vírus e cancelou os planos de todo mundo. — Ela coça a cabeça. — Desculpa, eu tô muito nervosa. Cadê a Emma?

— Não sei.

— Você não consegue ouvir ela?

— Não. Não tô ouvindo nada. Só você. E não, não foi um erro você ter vindo pra cá. Nem começa a pensar nisso… 

— E se vocês estiverem em perigo? E se essas pessoas forem caçadores de jovens com superpoderes?

— Não que isso vá te consolar, mas acho que eles só estão atrás de você… 

— O que não impede de ferirem você e a Emma.

— Para com isso, Trix. 

Ouço a mente barulhenta de Emma se aproximar. E respiro aliviado por alguns segundos.

É só o tempo de me levantar e ouvir duas outras mentes barulhentas surgirem do nada. Uma espécie de porta arredondada, com um brilho amarelado e inconstante, aparece bem em frente à cabana, do lado de fora.

Trix recua, se apertando contra a árvore.

— Eu falei para você que ela poderia estar acompanhada, não falei, Naro? — a mulher, que surge de dentro do portal, comenta, e recebe um olhar furioso do homem que a acompanha.

O tal Naro se aproxima da porta da cabana, mas antes que possa entrar, Emma para em sua frente. Eu nem vi ela chegar.

— Quem são vocês? — pergunta.

— Não é da sua conta, garota. Agora sai da minha frente que tenho um trabalho para fazer.

— Nossa, e você é muito mal-educado! — ela reclama.

— Vocês dois. — Ele aponta para Emma e para mim. — Nosso trabalho não envolve vocês, sigam para suas casas.

— E você é minha mãe para me dizer o que eu tenho que fazer? Pois é, não. Então sai você. — Emma não se move nem por um centímetro.

— Naro. — A mulher coloca a mão sobre o ombro do sujeito. — É melhor que a gente converse com esses jovens. — O homem recua a contragosto. — Não estamos aqui para ferir ninguém. Só queremos levar a senhorita de volta para casa — diz, olhando para Trix.

— E quem são vocês? — Patrícia refaz a pergunta que havia feito antes, quando os encontrou pela primeira vez. A diferença é que agora a mulher responde.

— Somos a Associação e trabalhamos para garantir que nenhuma anomalia ocorra no tempo/espaço. E você sabe muito bem, mocinha, que não pertence a este lugar! — Ela olha diretamente para Trix. Não gosto do tom professoral na voz dessa mulher, acho que prefiro o sujeito sem educação.

Há algo que não está sendo contado aqui, mas não consigo saber o que é.

— Se eu aceitar ir com vocês, ninguém se machuca, certo?

— Mas é claro que não. Não há motivo para isso.

Eu não gosto desse tom de voz… Não gosto mesmo!

— Para com isso, Trix. Você não vai com esse pessoal esquisito. — Emma intervém, se aproximando de Patrícia, na tentativa de se colocar entre ela e os dois membros da Associação. No entanto, é segurada pelo braço. 

— Já demoramos tempo demais aqui, Roberta. — Naro joga Emma para o lado e vai na direção de Trix. — Vamos acabar logo com isso!

Nem Naro, nem eu, nem ninguém esperava que Emma fosse pular sobre as costas dele, o impedindo de se mover.

— Tenho certeza que nós podemos resolver… 

— Ai, moça, cala a boca! — Perco a minha paciência, enquanto Emma continua pendurada sobre as costas do sujeito. E, quando ele tenta puxá-la, leva uma mordida na mão.

Chego até a sentir pena do coitado, mas passa logo.

— Essa garota é uma selvagem! — ele reclama.

— O que foi que você disse? — Emma está furiosa, consigo sentir daqui o calor que vem dela. Entre uma piscada e outra, minha amiga chuta Naro de volta para o portal de onde ele veio.

— Jovens, se acalmem! — A mulher ajeita uma mecha de cabelo, se afastando o máximo que consegue de Emma. — Nós somos uma associação pacífica. Não queremos fazer o mal, apenas controlar o distúrbio que você causou. — Aponta para Patrícia, que ainda está encolhida no canto. — Você não quer voltar pra casa? 

Não.

Meu coração se parte um pouquinho ao ouvir o pensamento de Trix, porque sei que ele é honesto. Ela não quer voltar. Mas se levanta e vai na direção da mulher.

— O que você está fazendo, Trix? Vai confiar nesse povo? — Emma tenta impedi-la.

— A moça tem razão — Trix fala baixinho. — Não pertenço a esse mundo aqui. Talvez exista uma versão minha perdida por aí. Imagina se um dia eu me encontro comigo mesma? Seria uma bagunça. — Ela para na frente de Emma. — Se ela diz que pode me levar de volta para a minha dimensão, não tenho motivo para não ir. — Trix está tão triste que meu coração se parte. — Gostei muito de conhecer vocês. Se eu fosse desse mundo, quem sabe a gente poderia ser amigo, ou você e suas pernas me dariam uma chance. — Emma sorri. — Enfim, talvez um dia a gente se esbarre por aí… — Ela vira as costas e se aproxima da mulher.

— Não faz isso, Trix — peço. Não quero que ela vá embora. — Se você ficar, a gente pode fazer tanta coisa junto. Pode ver Star Trek… ou um DVD desses sertanejos que você gosta.

Os olhos dela estão cheios de água. Me aproximo para secá-los.

— Esse não é o meu lugar — insiste, e termina de partir meu coração. Poxa, ela está tão triste que essa decisão não parece ser a correta. Tenho quase certeza de que não é a correta.

— Ela quer ir, Cobra. — Emma me puxa para trás. Não, ela não quer, quase grito. Só está fazendo isso porque acha que é o certo. 

— Tchau, gente. Obrigada por tudo. — Ela vira as costas, sendo guiada pela mulher. Mas, antes de entrar no portal, se vira para nós e diz: — E pelo amor de Deus, parem de bobagem e se beijem logo!

Sorrio, vendo Trix ir embora.

— Eram castanhos — digo, quando a luz do portal some no ar.

— O quê? — Emma pergunta baixinho. Eu me viro para ela antes de responder:

— Os olhos da Trix. Eles eram castanhos.

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© 2021 por Maria Freitas