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Capítulo 12

Criatura da parede

Eles mentiram para mim.

Não estou de volta em casa, mas sim em um quarto todo branco, com luzes fortes que não me deixam dormir. Naro me jogou aqui com a brutalidade de sempre, e Roberta saiu sorrindo com aquele ar falso. Descarada, mentirosa!

Eles são mesmo uma associação que tenta controlar o tempo/espaço, não permitindo anomalias dimensionais, ou tentando evitá-las. E meu poder é perigoso demais. Bom, foi isso o que me disseram antes de me jogarem aqui.

É óbvio que nos primeiros dias eu tentei me teletransportar. Para qualquer lugar, até mesmo para a dimensão da cidade fantasma. Não tive sucesso. Acho que essa sala é feita com algum material especial.

Em outras palavras: me lasquei.

E ninguém vai me resgatar, como nos filmes, porque ninguém sabe que estou presa sei lá onde no tempo/espaço.

Parabéns pelas péssimas escolhas, Patrícia.

Tento, mais uma vez, mandar uma mensagem mental para Cobra, apesar de não fazer ideia de como ele pode me ajudar dessa vez. Mas só ouço o silêncio.

Bom, é isso. Tenho que aceitar que passarei o resto da vida no quarto branco do BBB. Tá feliz, Manu Gavassi?

Penso nas pernas de Emma.

Penso nos olhos de Cobra, que eu nunca nem vi. Por que será que ele não tirava aqueles óculos? Nem tive tempo para pensar sobre isso. Infelizmente agora tenho tempo de sobra.

— Ei… — Olho para uma das câmeras que me vigia. — Tem como você colocar ao menos uma musiquinha? Eu gosto de sertanejo. Pode ser Henrique Carvalho… 

Ou será que ele está morto nessa dimensão? Será que eu estou morta em alguma dimensão? 

Penso no meu amigo Maycon e no sonho que ele teve, vendo a si mesmo em várias versões. Eu queria me ver em várias dimensões. Na verdade, queria ter continuado lá na casa da árvore com Emma e Cobra.

Eu me deito no chão, com a barriga para cima. Uma boa alma liga uma música do Henrique no sistema de som. Se tivesse como, eu beijaria essa pessoa.

Fecho os olhos com força e me imagino de volta em casa, deitada vendo vídeos no TikTok. Mas minha mente não consegue enxergar direito os detalhes. Tudo parece deslocado, com uma aura roxa-neon em volta. Um vento frio bate no meu rosto, me obrigando a abrir os olhos.

Não estou mais no quarto branco. Ao meu redor, espelhos de tamanhos diferentes me mostram várias versões de mim. Me vejo criança brincando com Maycon e Rafael na mata perto da minha casa, perto de onde fica a casa da árvore de Emma e Cobra. Mas não vejo só eu. Vejo Cobra beijar Emma e sair correndo. Vejo Maycon e Rafael se beijarem deitados no chão em uma casa velha. Vejo meu pai limpando a neve em frente a uma casa grande. Vejo minha mãe andando de bicicleta com sua maleta de esmaltes na cestinha.

— Onde estou? — pergunto para ninguém.

Todas as imagens estão desfocadas e arroxeadas, exceto uma. É uma parede branca, já encardida e com a tinta descascando. Só uma parede.

Aperto os olhos com bastante força, desejando, com todo o meu coração, estar naquela imagem. Vejo as luzes neon roxas me rodearem e me sinto completamente fora de mim.

Não preciso nem abrir os olhos para saber que estou no lugar certo.

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© 2021 por Maria Freitas