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Capítulo 4

Emma

Eu odeio esses malditos óculos espelhados que Cobra usa. É como se algo me impedisse de entender o que ele está pensando, como se estivesse se escondendo. O que é irônico, porque, finalmente, ele pode ser ele mesmo.

— Então qual é o plano? — pergunta.

Estamos subindo a rua principal rumo à minha casa. Precisamos andar na calçada, porque está bastante movimentado hoje. 

 

— Não tenho um plano. Você que disse que poderia me ajudar com… meu problema. — Continuo mal-humorada por tudo o que aconteceu no começo do ano e ainda por cima por Cobra se recusar a me contar como é que ele sabe sobre minha parede. Estou presumindo que ele pode ler mentes ou adivinhar coisas e vou seguir achando isso até saber a verdade.

— Ok. — Ele para na minha frente e me encara, me obrigando a parar também. Odeio quando faz isso. — Precisamos conversar sobre o que rolou entre a gente antes de qualquer coisa… 

— Discordo. — O empurro de leve e volto a andar.

— Qual é, Emma? Por que você é tão difícil? — Ele tenta me acompanhar, então ando ainda mais rápido, sem esforço algum. Por que eu sou difícil? Esse… ser humano deve ter uma memória muito curta… — Calma aí, Emma. Me espera! — Ele praticamente corre para andar do meu lado.

Eu paro quando já estamos perto da minha casa.

— Você quer falar sobre o que rolou? Tem certeza? — Duvido que realmente queira. Cobra hesita por um momento, parece que está me lendo. Eu queria saber se essa suposta fotossensibilidade que ele desenvolveu misteriosamente no começo do ano é verdade, ou se ele está escondendo algo por trás desses óculos.

— Eu quero… E também quero te mostrar uma coisa. — Ele volta a andar rumo à minha casa e, depois, vai direto até o meu quarto, que ele sabe muito bem onde fica. Quando passo pela porta, Cobra já está deitando na minha cama.

— Mas você é folgado demais! — resmungo, me jogando na cama ao lado dele.

— Desculpa, é o costume. — Ele se levanta e se senta, de modo a conseguir me encarar.

— Sete meses que você não pisa aqui… E ainda está acostumado?

— Você não faz nem ideia do que rolou comigo… — Cobra começa a perder o tom sereno que sempre me irritou. Reviro os olhos. Ele também não faz ideia do que rolou comigo.

É quando ele franze o cenho, em uma expressão de quem está tentando entender o que acabou de ouvir, que eu entendo…

 

— O meteoro… — sussurro. Há quanto tempo você consegue ler mentes, Cobra?, penso e me levanto, me sentando bem em frente a ele.

— De uma forma limpa, em que consigo saber quem está pensando o quê, há poucos dias. Já os ruídos, que foram ficando cada vez mais fortes, eu ouço desde janeiro.

Dou um tapa no braço dele.

— Você anda ouvindo o que estou pensando? — pergunto o óbvio, só porque não consigo conter a indignação.

— Não posso simplesmente reprimir. Eu tentei e ficou pior. Lembra aquela semana em que faltei da aula? Mas espera aí… Como você sabia?

— É você que lê mentes, adivinha aí… — digo, ressentida.

— Eu leio mentes, não adivinho coisas. — Ele é um idiota! Reviro os olhos de novo. Não sei como tenho paciência. — Você não me respondeu. Como você sabia?

— O meteoro me afetou também.

— Como?

Não respondo. Um ruído na minha parede prende a minha atenção. E a de Cobra também. 

— Você consegue ouvir isso? — Encosto as mãos sobre a tinta branca descascada.

— Sim, mas… não consigo entender direito. — Ele coloca a mão direita na parede, bem ao lado das minhas. — Parece que está longe, não consigo… 

Eu me afasto, frustrada, e me jogo de costas na cama. Cobra se deita do meu lado.

— Ouvi você pensando que o ruído às vezes fica mais forte. Talvez eu devesse esperar… 

— Aqui?

— Você quer que eu espere do lado de fora? — Ele se vira de lado, apoia a cabeça na mão e me olha.

— Por que você nunca tira esses óculos? — Coloco minha mão sobre a lateral da armação. Parte da minha pele encosta na pele dele. Cobra segura minha mão, pressionando-a de um jeito que não consigo retirá-la. Estamos tão perto… 

— Depois que o meteoro caiu, ouvir ruídos não foi a primeira coisa que aconteceu comigo — ele diz, em uma voz fraca, e deixa minha mão livre. Os sons na parede estão mais fortes, mas eu os ignoro. Sinto o coração acelerar quando puxo os óculos do rosto de Cobra devagar. — Por favor, não se assuste. — Ele está com os olhos fechados, mas vejo algumas manchas amarelo-esverdeadas logo abaixo deles. É por isso que ele usa óculos tão grandes.

— Pode abrir, não vou me assustar — falo baixinho, mas minhas mãos suam.

Ele respira fundo antes de tomar coragem e abrir os olhos. A parte que deveria ser branca está toda preta, e as íris estão da mesma cor das manchas que ele tem nas olheiras: amarelo-esverdeadas. As pupilas não são mais redondas, elas agora são mais finas e esticadas.

— Parece…

— Olho de cobra — ele responde.

Prendo a respiração por um instante. Eu jamais acreditaria no que estou vendo se não fosse pelas minhas pernas.

— O que tem as suas pernas?

Dou um tapa no ombro dele.

— Para de ler minha mente. — Eu me afasto e me levanto.

— Não dá para simplesmente não ouvir o que você pensa. — Ele se levanta também, ficando do meu lado, sem deixar que eu me afaste muito. — Você pensa muito alto!

— O quê? Você é um enxerido e a culpa é minha?

— Eu já disse que não consigo controlar… — Ele coloca as mãos sobre as minhas bochechas e puxa meu rosto de modo a encará-lo. — Mas para de fugir, o que tem as suas pernas?

— Elas estão mais fortes. Talvez não tenha dado para notar a diferença, porque eu sempre fui gorda e… 

— Sempre teve uns pernão… 

Bato nele de novo.

— Ai. Você quer parar com isso? Dói, tá?

— Agradeça a Deus por eu não ter te dado um chute, vai por mim… 

— Então você tem superpernas?

— Nossa, só piora. — Reviro os olhos mais uma vez. — Mas o que esperar de você, né?

— Está me julgando por ter escolhido meu nome por causa dos meus olhos?

Estou.

— Não. — É uma meia verdade. — O nome combina com você.

— Está dizendo que eu sou venenoso ou algo assim?

Apenas sorrio e deixo o (quase) silêncio cair sobre nós. É quando o ruído na parede fica ainda mais forte. Os olhos de Cobra dilatam, então ele coloca os óculos de volta e sussurra:

— Tem alguém aqui.

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© 2021 por Maria Freitas