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Capítulo 5

Cobra

Realmente tem uma pessoa presa na parede de Emma. E eu que pensei que tinha estourado toda a cota de coisas absurdas para uma vida inteira.

Estou com a orelha esquerda colada à parede. Emma também, mas já resmungou três vezes que não consegue ouvir nada.

— Não consigo ouvir nada! — Quatro. — O que você está ouvindo?

— Tem uma voz distante, pode ser um pensamento, mas não sei. Parece que a pessoa está se aproximando.

— A pessoa? — Ela se afasta um pouco. — Quem disse que é uma pessoa?

— Pensa como uma pessoa. 

— E tá pensando o quê?

— Não sei! 

Emma revira os olhos pela centésima vez. Às vezes eu acho que ela não me suporta.

— A gente vai falar sobre o que rolou lá na casa da árvore em janeiro? — pergunto.

— Não.

— Emma… 

— Você me beijou e nunca mais falou comigo. Não há nada mais pra conversar.

— Há muita coisa pra conversar. Aconteceram coisas, tipo: olhos de cobra, saída do armário, poderes especiais… 

— Aconteceram coisas comigo também, Cobra.

— Eu não me afastei porque o beijo foi ruim.

— O beijo foi ruim.

— Ai, por que você é tão difícil? — Respiro fundo.

— Só estou dizendo a verdade, ok? Foi um beijo estranho e cheio de medo.

Eu queria dizer que o beijo em si foi ruim, não o que o motivou. Eu queria dizer para ela que a gente poderia tentar de novo até não termos mais medo e o beijo ficar bom. Mas fico calado. Pelo visto, Emma não sente o mesmo que eu.

— Eu fiquei com medo — começo a dizer, mas um barulho forte me faz prestar atenção na parede novamente. — Ela está dizendo alguma coisa… 

— Ela?

— A parede.

— Ah.

Não era para ter dado tudo errado, ouço de uma forma bem nítida.

— Acho que a pessoa está presa.

— Na parede?

— Não sei se exatamente na parede. Parece que ela, a pessoa, conhece o lugar onde está, mas ao mesmo tempo não conhece, ou não se sente… pertencente a ele.

— Quê?

— Não sei explicar, mas parece que a pessoa está em um não-lugar.

— Uma dimensão diferente?

Olho para Emma. Sério, de onde ela tira essas ideias?

— Você continua assistindo muito sci-fi, né? — pergunto.

Eu só queria sair daqui.

— A pessoa está presa — constato, agora com certeza.

— Você consegue falar com ela?

— Como assim falar?

— Se comunicar, transferir seus pensamentos pra ela… 

— Eu não sou o Professor Xavier, Emma! — Encurvo os ombros, frustrado. — Queria muito, mas não faço ideia de como me comunicar com essa pessoa. Se é que é mesmo uma pessoa.

— Você acabou de dizer que é uma pessoa.

— Mas não tenho certeza!

— Tenta, Cobra. Tenta falar com a criatura — ela pede com jeitinho. Não sei se consigo negar alguma coisa para Emma quando ela fala desse jeito (o que é raro).

— Criatura?

— O ser. Enfim… 

Volto a colocar minhas mãos na parede, repetindo um mantra, na esperança de que a voz da minha cabeça seja ouvida pela criatura presa do outro lado. Depois de meia hora, me sinto um bobo.

Um bobo cansado.

Minha barriga ronca alto e me derrota de vez. Eu me afasto e me jogo na cama, completamente exausto.

— Já desistiu? — Emma está praticamente em cima de mim, o que não me ajuda em nada a me concentrar. 

— Tô com fome. Não tem daquelas tortas de frango que sua mãe faz não?

— Você tem dinheiro pra pagar?

— Para de ser ruim, Emma. Tô aqui pra te ajudar. Uma tortazinha não vai prejuízo pra sua mãe.

— Vai, sim. E você não me ajudou. — Ela se joga na cama do meu lado e se vira para me encarar. — Se você tentar mais um pouquinho, te dou um pedaço.

— Dois. E dos grandes.

— Ok.

— E outra coisa… A gente vai tentar de novo.

— Tenta de novo o quê?

Antes que eu possa responder, um ruído alto, que mais parece um grito, atravessa o quarto. Não sei o que está acontecendo, mas, definitivamente, a criatura do outro lado não está nada bem.

Eu me levanto depressa, pregando o ouvido contra a parede, quando outro grito me atinge. Mas, dessa vez, consigo entender perfeitamente o que está sendo dito.

Por favor, alguém me ajuda!

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© 2021 por Maria Freitas