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Capítulo 7

Emma

Eu não acreditei quando a… criatura se materializou no meu quarto. 

Cobra sussurrou algo como “ouça a minha voz” ou “siga a minha voz” e, em poucos segundos, uma menina de cabelos ondulados e castanhos, e completamente desfocada, apareceu no meio do meu quarto.

Foi tipo o Noturno de X-Men. Veio do nada.

Mas, diferente do Noturno que é azul, essa menina é só branca. Não tem cauda nem nada do tipo. Se não fosse por essas manchas arroxeadas no braço, eu diria até que não há nada de diferente nela. Tirando, é claro, o fato de não conseguir ficar estável. Juro! Parece que a alma dela fica saindo e voltando para o corpo. É bizarro!

Ela ainda está assustada e acuada no canto do quarto. Cobra tenta se comunicar, mas, até agora, nada.

Demora, tipo, uma meia-hora, sem brincadeira, para alguém realmente falar alguma coisa.

— Quem é você? — Cobra pergunta. A moça se retrai ainda mais.

— Quem são vocês? — A criatura (que agora não está mais presa dentro) da parede devolve.

— Eu sou o Cobra. Aquela lá é a Emma. — Ele aponta para mim e eu dou um tchauzinho com a mão. A criatura não fala nada, apenas respira de um jeito forte e descompassado, parecendo um animal que estava sendo caçado. — Ela estava sendo caçada — Cobra fala baixinho, olhando para mim. 

— Eu odeio o seu superpoder — resmungo, e ele faz uma careta. Ai, como odeio esse não-binário! Cobra dá um sorrisinho. — Que é? — Por que ele me tira tanto do sério só de olhar para mim?

— Você me ama, admite!

Pego a primeira coisa que vejo pela frente (um travesseiro) e jogo nele, que começa a rir da minha cara. E, por alguns segundos, até esqueço que tem uma completa desconhecida no meu quarto.

A ex-criatura da parede está olhando para nós dois. Ela tomba a cabeça de lado para nos observar melhor. E eu noto que o espectro inconstante das muitas versões deslocadas dela mesma está mais estável, tanto que consigo vê-la melhor. Ela tem os olhos, todas as partes deles, arroxeados, um roxo fluorescente.

— De onde vocês vieram? — ela pergunta.

— Não viemos de lugar nenhum, foi você quem apareceu aqui. Você estava presa na minha parede — digo, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo.

— Presa na... parede? — Ela arregala os olhos. Faço que sim com a cabeça. A garota parece menos acuada. — Mas é o mesmo lugar.

— Como assim? — Cobra se senta na cama, abraçado ao travesseiro que joguei nele, pronto para receber uma explicação.

— É que eu estava nesse quarto, só que não tinha ninguém, não tinha nada. Aliás, não tinha nada na cidade inteira.

— A gente sempre esteve aqui.

Eu hein! Não estou gostando dessa história…

— Não. Não tinha ninguém aqui. — Ela teima. — Eu estava sozinha até eles aparecerem. 

— Eles? — Cobra se mexe de um jeito desconfortável na cama. Mas a menina o ignora e começa a andar pelo quarto.

— Nós estamos em que ano? — desconversa, olhando para mim.

— 2020 — respondo, cruzando os braços. Mas o que quero saber é quem são eles.

— Mês?

— Setembro.

— Dia?

— É entrevista com a Marília Gabriela por um acaso? — Perco a paciência.

— Nossa, desculpa! — Ela suspira e olha para Cobra, tentando buscar um apoio nele. — Eu só queria entender como vim parar logo aqui, nessa cidade.

— Você já conhecia? — Ele pergunta, com paciência. 

— Já, nasci aqui! — Ela se senta ao lado dele. A aparência da menina parece estar estabilizando ainda mais, até as manchas arroxeadas do braço clarearam.

— E você tem família morando aqui?

— Não, mas um amigo meu amigo tem.

— E ele é filho de quem? — Cruzo meus braços. 

— Da Ana professora e do Fernando da marcenaria. — A menina me lança um olhar ansioso. Acho que nem ela sabe direito o que está acontecendo. Olho para Cobra. Cobra olha para mim. Eu não conheço essa gente. E, pelo visto, ele também não. — Vocês não conhecem? — Ela começa a ficar desesperada. 

— Não. — É Cobra quem responde.

— Talvez vocês não conheçam, mas aposto que a mãe ou o pai de vocês deve conhecer — insiste.

— Acho difícil. O Cobra é o maior futriqueiro da cidade, aposto que conhece todos os cinco mil habitantes.

Ele joga o travesseiro em mim, e dou um sorriso. Mas a menina parece ainda mais angustiada. Ela se levanta e começa a andar de um lado para o outro.

— Estamos em Santa Má, certo? — Tenta. Eu confirmo com a cabeça. — O trisal sertanejo mora aqui?

— Trisal? Que trisal?

— Pedro, Henrique e Cris.

— Amada, o Henrique morreu!

— Quando?

— Sei lá, há uns três anos… 

— Morreu não, amor! — ela rebate. — Tá super vivo e fazendo um monte de live na quarentena. A última foi em agosto.

— Quarentena? — Cobra se levanta da cama. — Que quarentena?

— Do Coronavírus... — Ela estreita os olhos roxos-neon.

— Eu disse que ela vinha de outra dimensão… — Cobra se vira para mim. 

— Não, você não disse.

— Disse, sim — teima.

Mas, antes que a gente possa começar nossa disputa infinita sobre quem está certo, a criatura solta um grande “ah” no ar.

— Agora faz sentido! — Volta a se sentar na cama. — Estou em outra dimensão. Não é a minha e nem a que eu estava antes, é só uma dimensão muito estranha sem corona e trisal sertanejo.

— Quando você diz trisal, você quer dizer envolvimento a três? — Cobra parece estar muito interessado no assunto.

— Uhum!

— Meu Deus, eu sempre soube que tinha algo naquela história… 

— Ei, vocês dois. — Movimento minha mão de um lado para o outro tentando chamar a atenção deles. — Acho que a gente tem uma parada mais importante aqui para resolver.

— Tudo bem, Emma, mas a gente pode comer aquelas tortas antes? Eu realmente estou com muita fome. Acho que a Patrícia não vai sair daqui… 

— Patrícia? Quem é Patrícia, gente?

A criatura da parede levanta a mão.

— Desculpa não ter me apresentado… verbalmente.

— Que seja! — Reviro os olhos e viro as costas. Estou começando a sentir falta da minha parede falante, quando ela era apenas uma parede falante. — Vou buscar as tortas!

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© 2021 por Maria Freitas