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Capítulo 8

Cobra

A Emma não está nada feliz.

Acho que ela realmente acreditava que o mistério da parede seria algo mais complicado de resolver, ou algo sombrio que envolvesse criaturas não-corpóreas de outros planetas. Mas, para o azar da imaginação de Emma, é só uma garota que começou a se teletransportar na mesma época em que os nossos poderes e os dela começaram a aparecer.

E eu penso que está muito além da nossa compreensão entender como aquele meteoro nos transformou na nova geração dos X-Men, só que no interior de Minas Gerais.

— Então, Patrícia… — Emma finalmente toma coragem de perguntar o que estava martelando na cabeça desde antes de sair para buscar as tortas. Ela não está confortável sentada no chão ao nosso lado e fica esticando as costas o tempo todo.

— Trix, pode me chamar de Trix. — A menina coloca um pedaço de torta na boca assim que termina de falar.

— Trix… — Se Emma tivesse aberto esse sorriso sarcástico para mim, acho que eu nunca mais voltava aqui. — Você disse algo sobre eles… Quem são eles?

— Não sei — Patrícia responde com a boca cheia. Emma olha para mim em busca de uma resposta melhor, mas Trix realmente não sabe de nada.

— É que ela estava presa sozinha em uma dimensão onde não tinha ninguém, e aí eles apareceram — explico, enquanto a moça termina de mastigar.

Isso eu já sei!, o pensamento de Emma é tão alto que faz minha cabeça doer.

— É um homem e uma mulher — Trix revela. — Eles apareceram do nada, dizendo que podiam me levar pra casa. Mas aí quando perguntei quem eram, eles não pareceram muito amigáveis. Sei lá, você não sai para ajudar alguém com uma arma esquisita na mão, né?

— Eles estavam armados? — Emma se encolhe um pouco.

— Os dois. É por isso que fiquei tão assustada.

— E o que você fez? — pergunto.

— Me teletransportei pra casa. Quer dizer, pra sua casa. — Ela olha para Emma. — Só que na outra dimensão. E aí comecei a ouvir essa voz na minha cabeça.

— O Cobra.

— Isso. E então, quando eles voltaram a se aproximar, eu só fechei meus olhos, segui a voz e apareci aqui.

— Simples assim? — Emma está desconfiada.

— Sim.

— E por que a gente acreditaria em você?

— Porque é a verdade, Emma — intercedo.

— Que maravilha, então! — Minha amiga se joga na cama, deitando com os braços abertos. — Agora tem duas pessoas armadas atrás da nossa querida criatura da parede… 

— Criatura da parede? — Trix estica o pescoço para tentar ver Emma.

— É assim que ela chamava você — explico. — A Emma pensava que você estava dentro da parede dela.

— Ah, que coisa mais sem sentido! — Trix não queria debochar, mas é exatamente assim que Emma entende. Para a minha surpresa, ela não fala nada.

O que é bom, porque o silêncio que fica no quarto é o que permite que eu escute duas pessoas conversando.

— Tem duas pessoas na parede — constato.

— O quê? — As duas dizem na mesma hora.

Eu me levanto e vou até a parede, colocando minhas mãos sobre ela. Dá para ouvir claramente o que as duas pessoas do outro lado estão pensando, o que me assusta um pouco. Eu não tinha ouvido os pensamentos de Trix com tanta precisão.

— O que eles estão dizen... pensando? — Patrícia se ajoelha na cama e coloca as mãos na parede também. Emma continua deitada exatamente onde estava.

— Estão tentando definir o que fazer agora… A mulher acha que pode te rastrear.

— Me rastrear? — Trix arregala os olhos. Acho que eu deveria mostrar a ela meus olhos de Cobra, talvez se sinta mais em casa. Sei como essa sensação de deslocamento a deixa desconfortável, por mais que agora ela esteja muito mais estável nessa dimensão do que antes. Ela parece estar se estabilizando aqui… ao mesmo tempo em que eles parecem estar perdendo o rastro dela.

Não, sua inútil, ela não voltou para casa. Acho que é o homem que pensa isso.

— A moça acha que o aparelho que o homem usa está com defeito. Mas ele tem certeza que você se deslocou para uma dimensão que não é a sua. Ah…

— O quê? — Trix bate no meu braço, ansiosa. — O que foi?

— Eu acho que eles são tipo uma empresa… Não, uma associação. Uma associação que controla as dimensões. Pensa mais — sussurro o pedido para a parede.

Como ela chegou lá?, o sujeito está realmente chocado com a habilidade de Trix se mover entre dimensões. O que não é nada bom.

— Não sei se a intenção desse povo é realmente te levar para casa. — Respiro fundo. — Eles não têm pensamentos de mocinhos.

 

— E como é que eles me rastreiam?

— Acho que seu deslocamento entre dimensões causa alguma distorção no tempo/espaço. — Eu me afasto da parede e aponto para a pequena aura arroxeada em volta de Trix. Minutos antes, dava para ver duas versões dela mesma distorcidas, agora já não dá mais. — E eles têm esse dispositivo que consegue detectar essa distorção.

— Ou seja, não consigo nem fugir, porque eles sempre vão me encontrar.

— Não sei… eu teria que me aproximar mais para ouvir melhor.

— Eu acho que essa parede por si só já é uma distorção no tempo/espaço — Emma diz com uma voz grave. — Ela permite que Cobra escute os pensamentos de quem está do outro lado. Até eu, que nem leio mentes nem nada, conseguia ouvir os ruídos que a sua presença lá causava.

— Faz sentido — concordo.

— Seria tipo um portal? — Trix se aproxima de Emma. Pela primeira vez, acho que as duas não vão brigar.

— Mais ou menos. Talvez uma janela? — Ela se levanta e fica sentada de frente para a outra.

Trix acha Emma muito bonita de perto. E está certa.

— Você já viu isso em algum lugar? — pergunto para Trix. Os pensamentos da garota estão muito confusos, mas há algo sobre um portal entre dimensões.

— Meu amigo de infância, Maycon, me ligou uns três meses atrás, dizendo que teve um sonho muito doido onde ele e o namorado viam várias versões de si mesmos em outras dimensões. Não dei muita bola, porque queria mais era saber desse namorado dele, porque esse relacionamento era uma novidade pra mim… Mas, não sei.

— Ele deu algum detalhe desse sonho? — pergunto.

— Não lembro, só sei que tinha algo a ver com a casa onde eles moram.

— Talvez não fosse um sonho — Emma diz exatamente o que eu estava pensando.

— Eu devia ter falado para ele sobre o meu poder, mas achei que ninguém acreditaria.

— Te entendo… — Emma volta a se deitar. Trix se deita do lado dela.

— Você também tem poderes?

Me sinto um pouco intrometido por ficar observando a cena, mas… sou futriqueiro mesmo, então fico olhando as duas interagindo de um jeito sociável pela primeira vez.

Volto a colocar a mão sobre a parede quando um pensamento alto me atinge. É da mulher.

Achei.

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© 2021 por Maria Freitas