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Capítulo 9

Trix

Estamos, eu e Cobra, correndo no meio do mato.

Ele fica dizendo que eu preciso me estabilizar. Porém, não faço ideia de como fazer isso. Não sinto que pertenço a esse lugar, mas, quanto mais tempo passo com ele e com Emma, mais me sinto em casa.

Será que é isso? Será que preciso criar conexões?

— Eu acho que sim. — Cobra para um pouco e coloca as mãos sobre os joelhos.

— Cadê a Emma?

— Ela disse que juntaria comida e nos encontraria lá na casa da árvore.

Entendo que eles não querem ficar perto do lugar onde creem ser mais fácil de me rastrear: a parede de Emma. Mas não sei se fugir de quem quer que esteja me perseguindo vá adiantar alguma coisa.

— E se eles chegarem na casa dela antes? E se pegarem ela? — Minha voz está tão aguda que incomoda até a mim mesma. Não sei se é pelo desespero ou pelo pique da corrida.

— Então coitados deles… — Ele zomba, fazendo uma careta.

— Credo, Cobra, não fala assim! Ela é meio difícil, mas é… 

— Bonita — ele completa meu pensamento. Bufo. — Você só constatou o óbvio, Trix. 

— Você… gosta dela?

Cobra não responde. E é como dizia a minha mãe: quem cala consente.

Sei que não preciso falar nada, porque Cobra já ouviu meus pensamentos.

— Acho que ela gosta de você também. — Começo a andar, porque não consigo mais correr. Sou sedentária, usava meu poder até para buscar água na cozinha.

Minha sala é conjugada, a cozinha ficava há exatos dois passos do colchão que eu usava como sofá.

— Duvido. — Ele me acompanha. — Tudo o que ela pensa é em como sou irritante e me culpa por ter sumido o semestre inteiro.

— Você sumiu?

— Não sumi de verdade, só me afastei dela. Tinha muita coisa acontecendo comigo.

— Talvez a Emma esperasse que você, sei lá, contasse com ela nos momentos difíceis. É o que amigos fazem.

— Ai, essa doeu.

— Eu menti?

— É mais complexo — ele hesita um instante. — Eu beijei ela e corri.

— Você o quê? — Seguro para não rir. — Quem beija alguém e sai correndo?

— Pode rir, sei que foi ridículo. É que eu sabia que não era uma garota e tinha medo da Emma não gostar de mim se eu não fosse uma garota.

— As pessoas dessa dimensão são todas assim?

— Não. Só eu que sou bobo e inseguro.

Bato com meu ombro no dele. 

— Eu acho você uma gracinha.

— Estamos chegando. — Ele desconversa, envergonhado, e passa na minha frente. Olho para trás em busca de algum sinal de Emma, mas não vejo nada. Volto a olhar para o caminho que Cobra abre na minha frente.

Ao longe, uma árvore alta, com um tronco grosso, se destaca entre as demais. Diferente do que pensei, a casa da árvore não fica no alto, mas sim no chão, usando o tronco como uma espécie de parede.

— Por que vocês demoraram tanto? — Emma grita ao longe.

— Como ela chegou aqui tão depressa?

— A Emma tem… superpernas! — Cobra responde, levantando os braços, completamente empolgado.

O que exatamente ele quis dizer com superpernas?

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© 2021 por Maria Freitas