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Capítulo 10

Emma

Patrícia está há exatas duas horas olhando para as minhas pernas. Não estou brincando, eu contei. 

— Além de correr rápido e pular alto, o que mais elas fazem?

Não sei se é uma curiosidade genuína ou se existe algum pensamento impróprio por trás dessa pergunta. Pelo jeito como Cobra ri, eu apostaria na segunda opção.

— É provável que, se eu chutar a sua cara, te mato.

Ela morde o lábio discretamente e Cobra cai na gargalhada de novo.

— Desculpa, é que… estou há cinco meses isolada em casa sem encostar em ninguém.

— Alossexuais… — debocho, sentindo uma pontada de empatia. Não consigo imaginar o que é viver isolada.

Cobra olha na minha direção, depois abaixa a cabeça.

— Ah… — ele diz.

— Ah o quê? — Trix pergunta, curiosa.

— Nada não — Cobra desconversa. — Será que eles conseguiram mesmo te achar, Trix?

— Espero que não.

— Já não dá para ver os seus vultos. E seu olho está quase normal — avalio, me aproximando dela. A parte branca dos olhos não está mais roxa, mas a íris ainda não voltou para a cor normal. 

Eu queria ver como eles são de verdade.

— Acho melhor a gente dar um jeitinho de verificar se a Associação está por aí, Emma. Melhor que eu vá — Cobra estica as costas. — Bom que eu trago uns travesseiros lá de casa.

— Se alguém for sair daqui que seja eu, porque vou rápido.

— Peraí, vocês vão ficar aqui?

— Lógico que vamos! 

— Por quê?

— E por que a gente não ficaria? — Também estico as minhas costas. Realmente precisamos de alguns travesseiros. E algo para nos cobrir, porque vai esfriar. Costuma ventar muito aqui.

Aquele dia estava ventando muito no seu cabelo, Cobra diz… Não, espera. Cobra pensa.

Eita, não acho que ele tinha a intenção de que eu ouvisse isso.

— Cobra, eu acho que… 

Ele coloca o indicador na boca.

— Estou ouvindo alguém.

Está um silêncio absurdo lá fora, só dá para ouvir o barulho do vento batendo nas folhas das árvores. Ficamos em silêncio por alguns minutos. Evito pensar em qualquer coisa, mas quanto mais evito, mais penso.

Sinceramente não sei como alguém consegue não pensar em nada. É impossível. Principalmente em um dia no qual uma pessoa se materializou no seu quarto vinda de outra dimensão e agora está sendo caçada por uma associação que não deve ter nada melhor para fazer… 

— Emma, xiu! — Cobra me dá uma bronca.

— São eles? — Trix se mexe do meu lado.

Cobra demora a responder.

— Não sei. Vou sair um pouco e tentar ver se consigo ouvir melhor.

Não gosto da ideia, mas se Cobra acha que é o melhor a fazer, confio nele.

Patrícia ainda está olhando para mim de um jeito fixo. Normalmente eu me sentiria mal, mas há algo nela que me deixa confortável. Talvez eu tenha me acostumado com a presença dela na minha parede. Ok que só durou três dias e na maior parte do tempo eu pensei que estava enlouquecendo… 

— Desculpa estar causando todo esse incômodo.

— Relaxa, você já estava me incomodando antes… — Não era exatamente o que eu queria dizer, mas é assim que sai. Abro a boca para explicar, mas ela sorri para mim.

— Ainda não consigo entender como você podia me sentir, mesmo eu estando presa em outra dimensão.

Devolvo o sorriso, apesar de nunca ter dito nada sobre sentir a presença dela. Eu falei sobre ouvir ruídos que eu achava que eram uma voz.

— E eu não entendo como você não saiu de lá antes. Tipo, você disse que fechou os olhos e seguiu a voz do Cobra, por que você não voltou para casa?

— Eu tentei. Tentei muito. Só que nunca deu certo. É que meu poder funciona assim: penso para onde quero ir ou do que preciso e simplesmente vou. Penso que quero uma água? Fecho os olhos e apareço na cozinha.

— E no que foi que você pensou para ir parar em uma dimensão vazia?

— Promete que não vai rir?

— Não.

Ela cruza os braços, mas fala mesmo assim.

— Eu pensei que queria ver meu crush.

Eu ri. É óbvio que ri.

— E foi parar em uma dimensão onde não tinha ninguém? — É sério, não dá para não rir. — Pra mim, isso é mais que um sinal!

 

— Pensando bem, acho que a pessoa nem era tão crush assim. Eu só estava muito carente. — Ela descruza os braços. — Pelo menos vim parar aqui e conheci vocês.

— Não acho que me conhecer seja algo assim tão legal para compensar os três dias que você ficou sozinha presa em uma cidade fantasma, mas… se você está dizendo… 

— Acredita em mim, a cidade fantasma não foi tão pior do que ficar em casa sozinha por meses.

Olho para a entrada da cabana. Nem sinal de Cobra.

— Já está escurecendo… 

— Dá para ver que vocês se gostam muito, né? Você e o Cobra.

— Hum, bobagem! — Levanto os ombros. — Ele vacila demais!

— Sei… 

— É sério! — Agora sou eu quem cruza os braços.

— Mas, tipo, existe essa possibilidade? De vocês terem algo a mais? — Ela está bastante interessada no assunto para o meu gosto… 

— Bom, levando em conta que eu sou bi e ele também, tecnicamente nada impede. — Quase conto o que rolou entre nós dois. Mas Cobra aparece de repente e anuncia:

— Não são eles.

Suspiramos aliviados, e eu chego a encolher os ombros.

— Então vou lá em casa buscar as coisas pra gente passar a noite. Vou dizer pra minha mãe que vou dormir na sua casa. — Eu me levanto e me viro para Cobra. — Quer que eu passe lá na sua casa e busque algo?

— Não precisa — Sorri.

Sorrio também. Sei que a situação é surreal, mas estou feliz de ter voltado a me aproximar dele. Não aguentava mais ficar olhando para a nuca de Cobra durante a aula, imaginando que minha mão ficaria muito bem ali, ou pensando em como seria bom assistir aquelas séries antigas de nerd que a gente gosta, deitados no chão do quarto dele. E é óbvio que esse enxerido está ouvindo tudo o que estou pensando. Que ódio!

— Seria ótimo, Emma.

Reviro os olhos.

— Você é um ridículo! — Saio batendo o pé forte no chão, o que percebo ter sido uma péssima ideia quando tudo começa a tremer ao meu redor.

— Vai com calma aí… — Ouço Cobra gritar, então começo a correr rápido para poder pensar longe daquele fofoqueiro intrometido. 

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© 2021 por Maria Freitas