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Capítulo 1

Emma

Minha parede é doida!

Não tenho outra palavra para definir o que acontece nesse conjunto de tijolos, cimento e tinta que fica atrás da cabeceira da minha cama. É sério! A parede fala comigo. Não consigo entender as palavras, é óbvio, mas dá para distinguir claramente uma voz dentro dela. Quando contei para Nae que a parede falava, minha amiga disse que aquilo provavelmente era meu vizinho conversando com alguém ou falando sozinho.

O problema é que… eu não tenho vizinho.

Minha família mora no fim da cidade. Literalmente é a última casa da rua, na última rua da cidade. E por mais que minha parede seja externa, é impossível que alguém do lado de fora da casa esteja falando comigo. Esse foi o meu primeiro pensamento, sempre que ouvia qualquer ruído, saía correndo para tentar ver se encontrava alguém ali, do lado de fora, brincando comigo. Mas nunca havia ninguém. Porque não há ninguém.

Eu sei que é a parede.

Ou alguém preso dentro dela.

Não sei como, só sei que é assim!

E que tudo isso aconteceu depois do dia 8 de janeiro, quando aquele maldito objeto estranho cruzou o céu, deixando uma marca rosa no azul clarinho. Aquela marca demorou horas para sumir e, quando sumiu… coisas aconteceram. A última delas foi que, dois dias atrás, minha parede começou a falar.

Ok, ela não fala, fala! São apenas ruídos estranhos, como se alguém estivesse muito distante, preso em algum lugar, gritando, arranhando, querendo sair.

Pensar que talvez exista alguma entidade agarrada nos tijolos da minha casa me apavorou no começo. Mas é tanta coisa estranha acontecendo na minha vida ultimamente que quase nada mais é capaz de me assustar. Se for um fantasma? Ótimo! Se eu estiver perdendo o controle da minha mente? Ótimo também.

A professora grita o nome de um aluno e me retira do meu transe. Às vezes, minha mente se perde completamente nessas divagações. Já fui chamada na diretoria quatorze vezes desde que o meteoro caiu. Eu acho um exagero! Sério. Tudo bem que as minhas notas despencaram, mas as notas de qualquer um despencariam se tivesse acontecido o que aconteceu comigo. Fora que continuo sendo uma das melhores alunas dessa escola. Minhas notas baixas são equivalentes às notas altas da grande maioria dos meus colegas.

Mas você não é os seus colegas, minha mãe vive dizendo. E todo mundo nessa escola parece concordar, porque qualquer distração minha é pior do que as bombas que o pessoal do segundo ano vive colocando no banheiro. Eles nunca foram parar quatorze vezes na diretoria, né? Já eu… 

Alguém solta uma risada de deboche. E o timing me faz acreditar que a pessoa riu de mim. O que não faz sentido nenhum, porque, até onde eu sei, ninguém aqui ouve pensamentos… Se bem que… 

Olho para a frente e vejo apenas as lentes espelhadas dos óculos redondos e escuros de Cobra me encarando. Na verdade, eu vejo o meu reflexo neles. Mesmo de longe, vejo meu cabelo rosa se destacando. Eu sempre me destaco com esse cabelo rosa, por isso que o pintei dessa cor.

Cobra está com um sorrisinho no rosto que me faz revirar os olhos. Garoto estranho… Ah não, não é um garoto! Ah! Pessoa. Pessoa estranha. Corrijo meus próprios pensamentos e vejo Cobra rir e se virar.

Tenho que admitir que essa mini interação foi completamente anormal. Mas o que é que está normal depois que aquele meteoro caiu? Minha parede mesmo… Ela fala!

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© 2021 por Maria Freitas