Capa Maria Freitas (1).png

Capítulo 2

Cobra

Há algo muito errado com essa garota.

Os olhos dela estão sempre perdidos. Ela não consegue focar no que a professora diz. Tudo o que pensa é em uma maldita parede desbotada, rachada e cheia de marcas de infiltração. Aposto que os ruídos que ouve são do encanamento velho daquela casa caindo aos pedaços onde mora.

Mas até que é divertido ouvir as teorias malucas que Emma faz. Muito mais divertido do que prestar atenção nessa aula chata. 

 

— História do Brasil é o meu…

— O que você disse, *****? — Esse não é o meu nome, então não é comigo que a professora está falando. O que está morto está morto, não deveria ser tão difícil assim de entender e respeitar. Ignoro completamente o que ela diz, cruzo os braços e me afundo ainda mais na cadeira. Ela fica me olhando, esperando uma resposta que nunca vai vir. — Cobra — corrige meu nome, agora sim eu escuto, e repete a pergunta: — O que você disse?

— Que essa História aí não é a verdadeira… — Aprumo as costas e a encaro, em desafio.

— Nós já conversamos sobre isso, não vamos conversar de novo! — decreta.

— Ok. — Descruzo os braços e relaxo os ombros. Sei que não é culpa dela que os livros que esse governo bosta enviou são um lixo, mas mesmo assim… 

A professora vira as costas para mim e começa a escrever algo no quadro. Ninguém anota. Está todo mundo cochichando baixinho sobre assuntos que não me interessam. Todo mundo menos Emma, que continua completamente perdida em si mesma, tentando encontrar uma justificativa para sua parede falante… Essa garota, sinceramente! Sorrio e volto a cruzar meus braços, mas não consigo deixar de ouvir o que ela está pensando.

Sei que, se me aproximar mais dela, posso conseguir entrar melhor em sua mente. Só que é arriscado demais. Ainda não sei lidar direito com esse… poder. Vai que ela percebe ou me acha mais estranho do que já acha. Vai que ela passa a me detestar mais do que detesta. Ok que a culpa é quase toda minha. Mas, é a Emma, minha (ex) melhor amiga!

E eu tenho que admitir que achei bonitinho ela se esforçar para não ser transfóbica nem em pensamento. Nenhuma outra pessoa aqui faz a mesma coisa. Nem minha mãe. Nem os professores. Ninguém. Nem mesmo as pessoas que dizem ser minhas amigas. Ela respeitou meu pronome no íntimo de sua mente… E pensar nisso faz com que eu me sinta culpado.

Eu não devia ficar ouvindo os pensamentos das pessoas, mas como um bom não-binário fofoqueiro que sou, fico.

Então um pensamento “alto” dela me atinge como um raio.

E se a criatura não estiver necessariamente presa na parede e, sim, em uma dimensão paralela?

— Ou entre dimensões paralelas! — ela fala alto. Olho para trás. De onde ela arranca essas teorias? 

Emma olha em volta constrangida, os dois coques de seu cabelo rosa se movimentam de um lado para o outro, acompanhando o gesto de sua cabeça. Acho bonito como essa cor combina com o marrom escuro de sua pele. Tudo nela é tão bonito…

Então Emma me encara brevemente e desvia o olhar. Nem ligo. Ninguém consegue fixar os olhos em mim por muito tempo.

Acho que meus óculos escuros repelem as pessoas, fazem com que eu pareça misterioso. Talvez eu seja uma grande incógnita para todos. Deve ser estranho olhar para alguém e não conseguir concluir nada sobre a pessoa. Não que a gente precise ficar concluindo coisas sobre quem não conhece.

Ainda estou olhando para Emma quando ela diz, com sua voz rouca e desaforada:

— O que foi? Perdeu alguma coisa aqui?

É minha chance de me aproximar e (ser antiético) ouvir melhor os pensamentos dela. Então me levanto, arrasto a cadeira para perto de Emma e me sento, colocando os cotovelos sobre sua mesa.

— Quem deixou você colocar seus braços magrelos sobre a minha mesa, Cobra?

Eu os retiro.

— Nossa! Você já foi mais simpática… 

A professora faz um “xiu”, mas ninguém fica em silêncio. Eu mesmo nem me abalo.

— E você já foi menos folgado — cochicha, se aproximando de mim. Sinto o perfume doce que vem dela e sou atingido por aquela sensação de vazio e nostalgia. — Cê quer alguma coisa?

Quero perguntar sobre a parede, mas não sei como fazer isso.

 — Na verdade, achei que você estava falando comigo antes… — minto, desviando o olhar dos olhos escuros de Emma. Por um breve momento, tenho medo de que ela possa ler mentes também. O que Emma descobriria sobre o que sinto quando estamos assim, tão pertinho?

— Eu não estava — diz, seca.

Reviro os olhos. Não sei por que tento ser simpático. Mentira, sei sim.

— Tudo bem, então! — Eu me levanto e começo a puxar minha cadeira de volta para o lugar, mas o pensamento dela me faz parar.

Não sei por que ele está tentando puxar assunto comigo agora!

Volto a me sentar.

— Olha, sei que fui muito escroto no começo do ano… 

— Ah, jura? — ela quase grita. A sala inteira olha para nós, mas depois todos voltam às próprias fofocas, enquanto a professora segue escrevendo no quadro.

— Me desculpa, ok? Eu só não sabia como lidar… 

— Não precisava ter parado de falar comigo do nada, né? — É, a Emma ainda está bolada.

— Foi há meses, Emma! Tanta coisa mudou… 

— Mas só agora que seus amiguinhos te viraram as costas que você vem puxar papo comigo, né?

— Isso não é justo! — Eu me levanto, chateado.

— Não?

Fico puto, então grito:

— Eu vim aqui pra te oferecer ajuda com essa sua bendita parede, mas você é muito ingrata! — Ops… 

— Você o quê? — Ela arregala os olhos. A sala inteira está olhando para nós.

— Uh, as sapatões estão brigando… — algum garoto diz. Sinto vontade de esfregar a cara dele no piso descascado do pátio.

 

— Cala a boca! — Grito sem saber com quem.

— Pessoal, o que é isso? — A professora anda até o meio da sala, com os braços abertos. — Minha aula virou bagunça? Vamos copiar a atividade. Ela vai valer cinco pontos.

— O quê? — Todo mundo grita.

— Eu, se fosse vocês, corria. Porque a aula só tem vinte minutos.

Solto o ar e me sento de novo na cadeira. Meu joelho até doeu de tanto me sentar e me levantar.

— Do que você estava falando? — Emma se inclina na minha direção e pergunta baixinho. — Que parede?

Já estou no inferno, vou abraçar o capeta.

— A do seu quarto.

Ela continua me olhando, confusa.

— A que fala, Emma. A parede que fala!

  • Instagram - Black Circle
  • Amazon - Black Circle
  • Twitter - Black Circle

© 2021 por Maria Freitas