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Capítulo 3

criatura da parede

A cidade é quase a mesma.

Reconheci os blocos da rua principal, a igreja, a farmácia do seu Tico. Mas há muita coisa nova por aqui, muito mais casas e casas com mais andares. Há fachadas de lojas por todas as partes, três lugares, que parecem bares, mas têm placas de igrejas. Não consigo afastar de mim a sensação de que conheço esse lugar com a palma da minha mão e, ao mesmo tempo, me sinto uma forasteira.

Mas até esse sentimento de estar deslocada seria aceitável se… tivesse alguém nessa cidade. Qualquer pessoa. Qualquer uma. No entanto, tudo o que vejo quando olho em volta são as ruas vazias. E estou presa aqui, sem conseguir sair, sem ter como pedir ajuda.

Faço, pela centésima vez, o caminho entre a praça e a última casa da rua (e da cidade), onde eu costumava morar quase uma década atrás, antes da minha tia se mudar e me levar junto. Entro na casinha pequena. Para a minha sorte, ninguém tranca as portas no interior. Não que isso fizesse alguma diferença, pois não há nada aqui também. Nem móveis, nem gente. Só eu.

Passo pela sala, onde minha mãe costumava fazer as unhas das mulheres da cidade, e olho para as minhas próprias unhas. Quando a imagem estática das minhas mãos para um pouco e elas não parecem uma mistura de versões de si mesmas, deslocadas, cheias de ruído, vejo que o esmalte de duas delas já descascou na ponta.

Passo pela porta que leva ao quarto que foi meu. As paredes rachadas e com infiltração poderiam até ser de uma casa abandonada, mas, quando morei aqui, elas também eram assim. Arrasto as costas pela parede, até me sentar no chão.

Não era para ter dado tudo errado. Não era para eu ser um ruído preso nesse não-lugar, que parece a minha casa, mas não me pertence, e eu não pertenço a ele.

Eu só queria sair daqui.

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© 2021 por Maria Freitas