AVISO DE GATILHO: VIOLÊNCIA (CONTO +18)

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Os últimos pensamentos de um homem podem demonstrar toda a loucura, dor, desespero e medo que habitaram aquele corpo em seus derradeiros segundos. Os preciosos momentos finais de um corpo em chamas.

Pelo menos, Jair pensou que aqueles eram seus últimos instantes de vida. Estava enganado. Contudo, só se deu conta do erro quando acordou em um leito de hospital. Do corpo, a única parte de pele que não derreteu no fogo foi o rosto, perto dos olhos. Olhos escuros, olhos de um homem enlouquecido pela dor. Ou a dor seria uma consequência de sua loucura?

Em outro lugar, outra época, uma mulher de cabelos longos e castanhos, dourados na ponta, caminhava feliz por um shopping lotado e extremamente bem iluminado. Seu olhar percorria as lojas com cobiça. Suas mãos não conseguiam mais segurar as sacolas repletas de roupas, joias e sapatos. A vida nunca fora tão boa.

A alguns quilômetros dali, um rapaz, de cabelos negros e desgrenhados, olhava as mãos sujas de sangue. O rosto era uma máscara de desespero, suor e covardia. Precisava sair daquele lugar, antes que alguém o visse naquela rodovia, sobre aquele corpo. Apressado, entrou no carro, amassado e sujo com sangue e miolos, e fugiu sem chamar a ambulância para aquele pobre senhor que jazia ali no chão, desacordado. 

Em um colégio barulhento, noutro canto da cidade, um adolescente, lá por volta dos seus 16 anos, furtivamente se escondia atrás de uma parede. Alguns segundos depois, outro garoto o surpreendia com um beijo urgente e apaixonado. Em meio às carícias e afagos, os dois meninos não notaram a plateia que os fotografava a pouco menos de cinco metros de distância.

No centro daquela cidade maldita, Jair seguia com sua rotina tediosa. Ler, analisar, reportar. Ler, analisar, reportar. Ler, analisar e mandar se foder. Estou cansado, frustrado, preciso de férias. Mas não podia se ausentar, precisava pagar o cartão da mulher, o carro do filho mais velho e o colégio do mais novo.

O escritório tinha a personalidade do homem, ou seja, não tinha particularidade alguma: era padrão, sem graça, insosso, acinzentado. Um lugar do qual a alegria corria, como o diabo foge da cruz e o vampiro do sol. Jair detestava aquela sala, aliás, odiava tudo o que o rodeava, principalmente, o barulho insuportável daquele telefone velho, mais irritante que a voz aguda da esposa.

— Alô — cuspiu a palavra, como quem cospe comida estragada.

— Amor — a voz de porco sendo abatido da mulher tentava parecer doce —, fiz umas comprinhas, mas o cartão não passou. Qual é o problema?

O problema é que você é uma vagabunda inútil, que pensa que tem o rei na barriga. Sua vadia maldita. 

— São problemas com o banco, meu amor. Não consigo resolver agora...

— Mas estou aqui na loja passando a maior vergonha, Jair! Não posso esperar!

Então morre, sua puta!

— Vou ligar para lá agora… Mas, por favor, Alessandra, deixe para fazer essas compras outro d…

— Você não vai me fazer passar uma vergonha dessas, Jair! — o grito de porco saiu abafado pela mão na mulher. Ela tentava não se humilhar ainda mais dentro daquela loja chique e cheia de madames.

Alessandra queria ser como aquelas distintas senhoras. Queria ser rica. Desejava não precisar daquele marido idiota e fracassado. Quantas vezes ela ainda teria que dar para aquele maldito liberar mais limite no cartão?

Me tornei uma prostituta barata, pensou com desgosto. Desligou o telefone. Não queria mais ouvir a voz daquele homem. Caminhou até o balcão da loja, onde uma vendedora jovem e loira sorria falsamente, e desculpou-se pelo incômodo. Com o resto de humildade que lhe restava, devolveu as compras e foi embora sem olhar para trás.

Já na garagem do shopping, ouviu uma voz aveludada chamar seu nome.

— Há quanto tempo não nos vemos, Lê!

O ex colega de faculdade estava belíssimo naquele terno preto. Ela ouvira que seu antigo amor agora era um advogado de sucesso, rico e poderoso. As pernas de Alessandra tremeram, o coração acelerou como antigamente e ela não conseguiu conter o sorriso que se formou em seu rosto.

— Rogério! — Abraçou o homem saudosamente. — Há quanto tempo!

Quando se soltaram, Alessandra pôde ver melhor o ex colega. Era um homem de meia idade, lindo, com a pele negra e o olhar apaixonante. Mesmo no alto de seus 40 e poucos anos, exibia um corpo atlético e tinha uma aparência jovem.

Era difícil resistir à atração que foi lhe descendo pela barriga.

— Você está linda, Lê! Uau! Aliás, sempre foi muito linda.

Aquela voz macia causava arrepios em Alessandra, desde a época da faculdade, vinte anos atrás.

— Você também está ótimo, querido! O que anda fazendo da vida? 

— Trabalhando bastante, como sempre. Soube que você se casou…

Alessandra respondeu revirando os olhos, não queria incluir Jair em sua conversa.

— Vamos falar de nós... — ela pediu em tom lisonjeador.

Saíram daquela garagem poucos minutos depois, rumo ao motel mais próximo.

Em casa, o rapaz chegava nervoso, estacionava o carro todo amassado e se jogava debaixo de um chuveiro frio. As imagens do que fizera não saíam da cabeça: eram nove da manhã e ele voltava de uma festa, completamente bêbado e virado. Em alta velocidade e descontrolado, atropelou um idoso que caminhava no acostamento da rodovia. Desceu do carro e pensou em socorrer o homem, mas, quando viu a quantidade de sangue espalhado no chão, desesperou-se e fugiu dali.

Agora, precisava limpar todos os vestígios do acidente. Pegou uma mangueira, um balde, uma escova, bucha, cera. O que era necessário e o que não era. Pôs-se a lavar o carro, de maneira desajeitada. Sentiu que a cabeça ainda estava tonta, consequência da madrugada de bebidas e festas. Nunca antes na história daquela família, ele havia lavado ou limpado alguma coisa. Mas, agora, algo estava errado. Julieta fora despedida sem aviso prévio ou qualquer direito, para o desgosto do rapaz que gostava de observar a pobre empregada em seus momentos íntimos.

Na nova realidade da família, era a mãe quem cozinhava. Contudo, naquele dia, ela não voltou das compras a tempo de fazer o almoço.

— Por que você não esquentou alguma coisa, Rafael? — Alessandra quis saber, após chegar em casa e ser cobrada pelo filho. Quem esse moleque pensa que é?

— Estava lavando o carro, mãe!

Alessandra revirou os olhos e deu o assunto por encerrado. Se o garoto quisesse comer, ele que se virasse.
A mulher sempre fora relapsa na criação dos filhos. Os meninos viviam a deus-dará. Nunca teve talento para a maternidade, nunca teve talento para nada. Na faculdade até se destacou em algumas áreas, mas, ao se formar, não quis estudar para a OAB, muito menos para concursos públicos.

Escolheu o casamento, achou que seria um jeito mais fácil de adquirir tudo o que achava que merecia. Mas, agora o marido estava falido, rebaixado na empresa em que trabalhara por anos, porque, simplesmente, não conseguia mais atender às demandas quase desumanas que lhe eram impostas.

Perdida em pensamentos, Alessandra não viu o aproximar de  ngelo, seu filho mais novo. O garoto passou por ela quase se desfazendo em lágrimas, desesperado. Correu para o quarto e lá ficou a tarde inteira, sem coragem de encarar o mundo, muito menos de olhar o celular.

As fotos de  ngelo beijando outro garoto foram espalhadas pelos grupos de Whatsapp. Agora, seu smartphone era um verdadeiro inferno. As notificações não paravam de apitar. Pensou em desligar a internet, o celular, mas seria pior depois. Uma hora ele teria que abrir todas aquelas ofensas. Em algum momento,  ngelo teria que encarar o mundo terrível da internet.

Só que não era agora.

Silenciou o aparelho e deitou, desejando dormir e acordar num planeta mais humano.

Mas despertou, horas depois, com batidas violentas em sua porta.

— Abre essa porta, seu moleque desgraçado! — a voz, outrora sonsa do pai, era ódio puro. — Eu vou derrubar essa merda — falou para Alessandra, que estava apática ao lado do marido, ainda tentando entender o que estava acontecendo.

Com o estrondo do corpo do homem batendo contra si, a porta do quarto abriu.

— Seu viado desgraçado! — Jair pulou para cima do filho, como uma leoa ao atacar uma presa. O garoto, que sequer havia levantado da cama, não teve tempo de reagir aos socos que o pai lhe deu. Jair, por sua vez, o pegou pela camisa e o jogou no chão, com força.  ngelo não conseguia pensar, nem dizer nada. Já Alessandra chorava e gritava, chamado Rafael.

A onda de ódio que dominou o corpo de Jair não diminuía conforme ele chutava as costelas, a barriga, as costas e as pernas do filho. Pelo contrário, a cólera ficava ainda maior.

— Não criei filho pra ser viado! — ele berrava entre dentes, enquanto batia em  ngelo com toda a força que tinha.

No chão, o garoto tentava esquivar-se e proteger-se do ataque, mas não conseguia. O pai era mais rápido em seus chutes. 

— O que tá acontecendo aqui, pai? — Rafael tinha acabado de chegar ao quarto e, ao ver a cena, tentou puxar Jair para trás. Obteve sucesso. Alessandra correu para ver se  ngelo estava bem.

— Você não viu as fotos desse viado — o homem cuspiu a palavra, com ódio — beijando um outrozinho igual a ele?

Rafael arregalou os olhos e soltou o pai, chocado. 

— Olha aqui, Rafael — Jair procurou pelo celular que trazia no bolso da calça, mas ele não estava mais ali. Percorreu o olhar pelo chão, até encontrar o aparelho que, provavelmente, havia caído durante seu acesso de raiva — Aqui ó — e abriu uma conversa no whatsapp do grupo da empresa onde trabalhava. — O filho do Márcio mandou para ele essas fotos. Olha aí, Rafael, se não é esse moleque desgraçado.

O queixo do rapaz caiu. Olhou para o irmão mais novo ali quase desmaiado no chão, enquanto a mãe, desesperada, tentava ajudá-lo. A culpa era toda dela. Ela mimara  ngelo desde pequeno, nunca escondeu a preferência por ele.

Bem feito, tomara que ele pegue AIDS e morra! Rafael pegou o pai pelo braço e começou a arrastá-lo dali. Não valia a pena. Antes de sair do quarto, contudo, Jair olhou para aquelas duas figuras miseráveis e ameaçou:

— Não quero mais essa bicha aqui, Alessandra. Não quero mais alimentar esse viado. Você ouviu?

Alessandra lançou um olhar submisso ao homem. Não iria contrariá-lo. Por mais inútil que fosse, Jair era o chefe daquela família, o sustento de todos ali. E ela havia acabado de ter a prova que ele não era tão sonso quanto parecia.

A mulher ajudou o filho a arrumar algumas coisas para sair dali, mas Jair não deixou que ele levasse nada de casa. Só com a roupa do corpo, o celular e um pouco de dinheiro que a mãe, furtivamente, havia lhe dado,  ngelo foi procurar a ajuda da única pessoa que achou que o compreenderia.

David, o namorado, o acolheu em casa provisóriamente e o levou ao médico para cuidar dos machucados. Alguns dias depois,  ngelo foi morar em um abrigo para jovens LGBT expulsos de casa. Pela primeira vez na vida, o garoto se sentiu acolhido. Por não ter dinheiro e o apoio da família para continuar no colégio, ele teve que sair. Para se sustentar, conseguiu um emprego numa loja de roupas chiques.

Foi onde encontrou sua mãe pela primeira vez, alguns meses depois. Alessandra até tentava manter seu visual impecável, mas seu olhar abatido não enganou o filho.
— A senhora está bem? — ele quis saber, enquanto a ajudava a escolher uma blusa nova.

— Tô sim, meu filho. Só triste por não te ter lá em casa. E seu pai…

— Não quero saber desse homem.

— Ah, filho! Mas eu tô tão preocupada — ela baixou o tom de voz. — Seu pai já recebeu vários avisos da empresa, estou com medo dele ser demitido.

— Mãe — ele a interrompeu. — Não me interessa. Não depois do que aquele maldito me fez. Não quero saber nada dele. Nada.

O assunto morreu ali, mas voltou à cabeça de  ngelo quando os cartões da mãe não passaram no caixa. Morta de vergonha, ela devolveu os objetos, deu um beijinho no rosto do filho e foi-se embora.

Era a última vez que  ngelo via a mãe.

Algumas semanas depois, ele recebeu uma mensagem de texto do pai, pedindo-lhe desculpas e o chamando para voltar para casa. O garoto ignorou e continuou a vida. Não queria saber daquele homem. Não queria ouvir o que ele tinha para dizer. Não queria perdoar sua intolerância, sua violência. 

Jair olhava os papéis sobre a mesa e não conseguia acreditar a que ponto havia chegado. Eram tantas contas, tantos problemas. Passara tanto tempo existindo para que os outros vivessem. Tanto tempo perdido naquele trabalho entediante para dar tudo do bom e do melhor para a mulher e filhos.

Ingratos malditos! 

Aquele distinto chefe de família aguentou as ofensas dos colegas de trabalho. Suportou que lhe chamassem de florzinha, por conta do filho gay. Suportou todas aquelas humilhações. Até quando alguém mais novo tomou-lhe o emprego, saiu daquele escritório de cabeça erguida.

Não teve coragem de contar para Alessandra que estavam quebrados, endividados, fodidos. Achou que as coisas melhorariam, confiou nas palavras de um deputado: “pior do que tá, não fica”. Ficou.

A polícia bateu em sua porta procurando por Rafael. O rapaz havia atropelado um idoso e fugido sem prestar socorro. Agora, teria que responder judicialmente pelo crime. Nervoso, Jair ameaçou vender o carro para pagar as dívidas e as despesas com o processo, mas Alessandra interveio. A mulher ofereceu a ajuda de um ex colega de faculdade, que agora era advogado de renome, e garantiu que ele aceitaria sem cobrar nada.
Ninguém trabalha sem cobrar nada, alguma coisa esse sujeito quer, pensou Jair, amargurado.

O pensamento virou certeza quando conheceu o tal advogado e viu a maneira como ele e a esposa se olhavam. Durante tantos anos viveu para aquela mulher. Deu-lhe tudo que ela queria, satisfazia suas vontades, realizava seus sonhos, deixando sempre os seus próprios para trás, em segundo plano. E agora aquela puta maldita se deitava com um engomado qualquer. Não era justo.

Jair fazia tudo por aquela família e, finalmente, percebeu que eles jamais fariam o mesmo por ele.  ngelo era um viado ingrato, Rafael virou um mauricinho pervertido e irresponsável, e Alessandra uma vadia da mais baixa espécie.

Vinte anos de dedicação, vinte anos de vida jogados fora. Vinte malditos anos.

O abrigo de Jair era a bebida e os comprimidos vencidos que a mulher não tomava mais. Ele achava que aquelas drogas o salvariam dos pensamentos que começavam a consumi-lo. Pensou que, com aquilo, conseguiria sentir que era mais do que um objeto abandonado na prateleira dos familiares.

Não resolveu.

Mais abatido, mais deprimido, mais retraído, Jair deixou que um ódio terrível e profundo consumisse seu corpo. Uma cólera maldita por aqueles que sugaram-lhe a vida. Não existia mais amor naquele homem, se é que ele um dia foi capaz de conhecer aquele sentimento.

Alessandra percebeu que havia algo muito errado com o marido, mas, egoísta como sempre fora, colocou a si mesma em primeiro lugar. Preocupou-se com sua vida, com sua beleza, com suas roupas. Quando Rogério apareceu lhe oferecendo luz, desejou com todas as forças sair da escuridão que era sua vida.
Mas a luz de lâmpada que Rogério oferecia era insuficiente. O homem era casado e queria apenas manter uma amante muito bem escondida. Alessandra jamais aceitaria tal humilhação. Ser sustentada como concubina de um homem era demais para seu ego. Ela já havia descido muito baixo, não precisava arranhar ainda mais o chão.

Mesmo assim, Alessandra pensou seriamente em ir embora, chegou até a arrumar as malas, mas desistiu. Pensou em Rafael e no momento difícil que o filho enfrentava. Lembrou-se do que o marido fizera com  ngelo. Ela ainda tinha esperanças de que o filho retornaria para casa e que eles seriam a família feliz que nunca foram.

Infelizmente para ela, Jair notou que havia algo errado ao ver as coisas da mulher desorganizadas, algumas até jogadas ao chão. O ódio do homem foi se transformando rapidamente em um desespero quase tangível.

Rafael, trancado em sua própria consciência, que o condenava como um assassino irresponsável, não era capaz de notar nada que acontecia ao seu redor. Lembrou-se dos dias felizes, quando ganhara aquele carro ao completar 18 anos. Lembrou-se do corpo nu de Julieta, durante aqueles banhos rápidos. Rafael sempre fora sua plateia fiel e secreta. A moça nunca desconfiara. Nem mesmo quando Rafael a agarrou à força, depois de voltar bêbado de uma festa. Jamais passou-lhe pela cabeça que a cobiça do rapaz por seu corpo fosse tão antiga.

Agora, até aqueles pensamentos, outrora felizes, doíam. A consciência do que fizera bateu em sua alma, partindo-a em mil pedaços. Talvez ainda exista algo de bom em mim.

Jair, por sua vez, já havia perdido a sua, em meio a tantos outros tormentos. A aflição de uma vida inteira desperdiçada. Olhou-se no espelho e viu um rosto envelhecido e enrugado, abatido e cansado. Viu um homem louco.

Decidido a calar as vozes que gritavam em sua cabeça, mandou uma mensagem para  ngelo, implorando para que o filho retornasse para casa antes do natal. Não obteve resposta. Esse viado maldito sempre foi um desgarrado. Tomara que morra sozinho.

Comprou o que devia comprar. Contudo, antes do fim, quis conversar com Rafael, algo que não fizera durante toda a vida do rapaz. 

— Sua mãe me disse que você não sai mais desse quarto. O que está acontecendo moleque? — Há algum tempo, Jair já havia desistido de tratar as pessoas com carinho.

— Tô cansado, pai!

— Cansado de quê, seu bosta? — ele se irritou. — Você é um inútil, não faz nada. Não estuda, não trabalha, não namora. Só entra naquele maldito carro e vai farrear. Você só faz merda, moleque. E vem me dizer que está cansado? — Caminhou até a cama, onde Rafael permanecia deitado — Levanta já daí. Vá procurar alguma coisa para fazer. Anda! —  Agarrou o filho pelo braço e foi o levantando.

Furioso, Jair pegou as chaves do carro e as jogou dentro do vaso sanitário. Gastara um dinheiro que não tinha para dar aquele agrado ao filho preferido, mas as únicas coisas que o veículo trouxera foram dívidas e desgosto. Não. Jair estava cansado daquilo. Esgotado daquela casa, daqueles móveis. Queria acabar com tudo.

Antes, porém, calculou bem seus passos.

Chamou Alessandra para uma conversa e pediu que ela preparasse um jantar alguns dias antes do natal. Ele compraria tudo que ela quisesse e precisasse com o resto de dinheiro que sobrara da rescisão de seu emprego. A única condição é que ela chamasse também o distinto advogado que os ajudara com o caso de Rafael.

A mulher ficou intrigada com aquilo, mas pensou que o marido queria se mostrar para Rogério. Preparou tudo.

Jair também se preparara. Comprou tudo que era necessário. Queria servir tudo do bom e do melhor para sua família e convidado. Mas a cereja do bolo era a garrafa de vinho caro que ele guardara para o brinde final.

Rogério aceitou o convite e apareceu sozinho. Alessandra teve o bom senso de não estender a invitação para a esposa de seu amante. Jair achou aquilo perfeito, conforme havia planejado. 

Vestido elegantemente com um terno preto, Rogério ainda teve o descaramento de flertar com Alessandra durante o jantar. Jair se fez de sonso, como costumava fazer, e fingiu não perceber nada. Já Rafael, envolto em sua culpa, só conseguia pensar no natal pesaroso que a família daquele senhor, sua vítima, iria passar.

Jair olhava a esposa sorrir furtivamente para seu amante. Como ela pode ser tão descarada? Alessandra estava especialmente bonita aquela noite, com um vestido azulado que combinava com sua pele branca e com seu cabelo castanho. Jair conseguia se lembrar, em meio a tantas vozes e imagens em sua cabeça, daquela jovem estudante de direito que ele conhecera, tanto tempo atrás. Lembrava-se também dos anos que dedicara à ela e que a esposa jogara fora como uma bota velha.

Essa puta merece morrer!

Antes que todos ficassem satisfeitos, Jair se levantou, pegou a garrafa de vinho caro e propôs um brinde. Gentilmente, serviu os presentes com a bebida e sorriu-lhes amarelamente.

— Este jantar é um agradecimento, não somente à presença de vocês aqui hoje, como à presença de vocês por todos esses anos de minha vida. Dediquei-me à esta família de corpo e alma, e faria, sem pensar, tudo o que fosse necessário para salvá-la. Colocaria à mim mesmo na forca por vocês. Infelizmente, não estamos completos, falta  ngelo… Não. Não falta. Aquele garoto nunca pertenceu, de verdade, a esta família. Bom — ele fez uma breve pausa —, a verdade é que chegou a hora de salvar a mim mesmo.

Alessandra olhou para o marido, esperando alguma revelação, mas ele apenas fitou os convidados e levantou sua taça. Todos o acompanharam, bebendo um pouco de vinho em seguida. Jair sorriu triunfante. Caminhou até a esposa e a impediu de beber todo o conteúdo que havia em seu copo, sussurrando em seu ouvido:

— Você não, amor. 

A mulher olhou o marido sem entender, enquanto ele tirava o vinho de sua mão. Contudo, poucos segundos depois, ela compreendeu.

A visão de Rafael foi ficando turva. No começo, o rapaz até pensou que fosse a quantidade de bebida ou o cansaço, mas logo notou que havia algo errado. Tarde demais. Seu último pensamento foi destinado ao corpo nu de Julieta embaixo do seu, implorando para que ele parasse.

Já Rogério resistiu por alguns segundos a mais. Conseguiu se erguer da cadeira, mas falhou em ficar de pé. Caiu estatelado no chão, de onde nunca mais levantou.

Horrorizada, Alessandra olhava aquela cena. Demorou preciosos segundos para compreender o que estava acontecendo. Enquanto isso, o marido agarrou seus braços e os prendeu à cadeira. Sem forças para reagir, a mulher começou a gritar e chorar desesperada. Implorava para que Jair explicasse o que estava fazendo.

Nunca na vida, aquele homem havia sentido um prazer tão grande quanto aquele. Ver o inútil do filho, no qual ele investira tanto, ali caído no chão, imóvel, babando, como o patife que sempre fora. Do outro lado, o imponente advogado era uma figura miserável e insignificante perante toda a grandiosidade que Jair havia planejado.

Olhou para Alessandra, mas não conseguia ouvir seus grunhidos, não em meio a tantas vozes falando, gritando, berrando em sua cabeça. Mas aquilo tudo iria acabar em breve. Foi até a garagem, após se certificar que a mulher estava bem presa e que não escaparia, e pegou o primeiro galão de gasolina. Espalhou por ali mesmo, jogou no carro de Rafael, na parede, nos objetos jogados ao chão. Acendeu o fósforo que trazia no bolso e jogou no chão. Depois pegou outro galão e foi até a sala de jantar.

Alessandra lhe lançou um olhar apavorado, quando viu o que ele trazia consigo e se deu conta do que o marido faria. Tentou desesperadamente se soltar daquelas amarras, tentou lutar pela vida. Falhou.

Jair espalhou o líquido por todo o ambiente, jogando uma quantidade maior sobre Rogério e Rafael. Quando chegou até o último, Alessandra gritou ainda mais desesperada, em uma das raras vezes que sentiu a dor de ser mãe. Aquele homem machucaria seu filho, ela tinha que fazer alguma coisa. Mas não conseguia se soltar.

O marido, que mantinha o sorriso triunfante e enlouquecido no rosto, aproximou-se dela e jogou o resto do líquido sobre os corpos dos dois. Queimariam juntos. 

Jair pegou a caixa de fósforos e olhou para Alessandra. A mulher se machucava tentando escapar daquela cadeira, ao fazê-lo se jogou no chão. O marido se ajoelhou e aproximou os lábios dos ouvidos da esposa:

— Você vem para o inferno comigo, Alessandra. Sua puta maldita. Mas, você vai queimar primeiro!

Riscou o fósforo e jogou sobre a esposa.

As chamas começaram alegres, rodopiando pelo corpo de Alessandra e se espalhando por todo o cômodo. Os gritos da mulher se juntaram às vozes que Jair trazia em sua mente. Estava feito, então por que não se sentia em paz? Sentiu o beijo quente do fogo tocar sua pele, uma dor terrível e indescritível dominou seu corpo, enquanto ele tentava manter os olhos em Alessandra, que queimava abaixo de si.

Caminhe comigo. Caminhe comigo e queime!

Alguns dias mais tarde, no hospital, Jair acordava e sentia uma dor terrível, que o fazia querer arrancar a própria carne. Tentou chamar alguém, mas não conseguiu. Abriu os olhos com dificuldade e viu o olhar de  ngelo o queimar mais que fogo. O filho que lhe restava, aproximou-se dele e, com todo o ódio que reuniu no coração, decretou:

— Esse fogo que te queimou não é nada perto da dor que você vai sentir no inferno, que é pra onde você vai, seu porco — o garoto falava apertando as ataduras do braço do pai com força. Jair não conseguia reagir. A dor dominava seus instintos, seu corpo, sua alma — Mas, antes, você vai sofrer aqui. — Apertou o braço ainda mais forte, antes de virar as costas e ir embora. — Você vai sofrer sozinho. 

Jair quis, por tanto tempo, se libertar da família. Agora, seu desejo estava realizado, ele não precisava mais viver pelos outros. Agora, não tinha a quem salvar, a quem sustentar. Agora, era ele e sua dor. Ele e seus arrependimentos. Ele e as vozes em sua cabeça.

Olhou para os lados e viu a imagem de uma Alessandra desfigurada sorrir satisfeita. Seria uma alucinação ou um fantasma? Aquela figura assustadora aproximou-se de Jair lentamente, fitando-o com desdém. Quando chegou perto o suficiente, um sussurro quebrou o silêncio daquele quarto de hospital:

— Sempre caminharei contigo, maldito!

Foi quando Jair compreendeu que nunca estaria em paz.