Minha amiga, a morte


A primeira vez que a vi, ela vestia um manto dourado e um olhar sereno. Eu vestia sangue. Tudo ao meu redor estava distorcido, revirado, cheirando a óleo, borracha queimada e aquele odor metálico. Minhas mãos estavam pegajosas, mas eu não conseguia vê-las, pois estavam presas atrás do meu corpo. Quebradas.


Eu tinha sete anos, e não entendi. Não entendi quando a vi se aproximar de mim, quando a vi tocar os pedaços sem sentido que me cercavam, trazendo com ela uma luz que me cegava, e transformava tudo em escuridão. Olhos piedosos pararam sobre mim, encontrando os meus, assustados. Ela tentou me tocar, com suas mãos escuras, mas não conseguiu. A piedade se transformou em confusão quando ela se afastou. O calor aconchegante que trazia foi se distanciando, deixando um vazio estranho, como se algo em mim tivesse sido sugado.


Mas não foi. Eu ainda estava ali, consciente que não deveria mais estar. Com os olhos abertos para uma vida que nunca me deixaria.



Na segunda vez que a vi, ela não estava com seu manto dourado. Vestia uma capa clara, suja de lama; parecia cansada. Não trazia mais aquela luz, nem aquele calor que me abraçara tantos anos antes. Mesmo assim, sua figura se destacava em meio ao caos. Pés descalços caminhavam sobre roupas, corpos e sangue.


Eu a observava de longe, do meu esconderijo improvisado, quando a claridade queimou meus olhos, uma força me fez voar para longe, e um barulho mais forte que o de um trovão me desnorteou. Caí. Meu rosto bateu no chão e grãos de areia entraram pela minha boca aberta. Imóvel ali, eu a vi se sentar e colocar as mãos no rosto.


Continuei parada, porque não conseguia mais me levantar. Ela também ficou lá, observando aquele pequeno fragmento de mundo entrar em colapso. Quando abriu a boca, um grito agudo atingiu meus ouvidos, me fazendo arrepiar. Eu ainda estava viva, apesar de não sentir mais nada. Ela se levantou e voltou a caminhar entre os meus aliados e os meus inimigos, caídos no chão. Sem fazer diferença, ela os tocava gentilmente. E os levava. Não os corpos, os corpos continuavam ali.


Quando se aproximou de mim e tentou me tocar, suas mãos me atravessaram. Mas ela pareceu não notar. Continuou seu trabalho, arrastando as pontas claras de seu manto, andando automaticamente entre nós.


Tentei me virar para acompanhar a caminhada dela entre os mortos, mas não consegui. Fechei meus olhos, esperando que ela percebesse seu erro e voltasse para me buscar também. Dormi.


— Não foi um erro. — Uma voz suave me acordou. Gritos e tiros eram ruídos distantes.


Abri as pálpebras.


Ela estava deitada ao meu lado, olhando para mim com olhos pretos e profundos, que me puxavam para a escuridão que existia em mim. Eles me refletiam.


— Não consigo tocar você. — A mão esquerda dela transpassava a minha direita.


— Quem é você?


— Eu quem deveria fazer essa pergunta. — Ela se virou e fitou o céu. Olhar seu rosto de perfil era como olhar para nada e para tudo. — É a segunda vez que não consigo levar você.


— Me levar para onde?


Ela não respondeu.


— Tenho que ir. — Sem esforço algum, quase dançando, ela se pôs de pé.


— Quem é você? — Consegui apenas me virar, apoiando as costas completamente no chão.


— Nós ainda nos veremos, Amanda. Cedo ou tarde, o momento de todo mundo chega. Eu ainda virei te buscar.


Ela me olhou antes de desaparecer, deixando no ar aquelas palavras que soavam como uma promessa. Uma promessa que não foi cumprida.



Com o passar dos anos, a compreensão me atingiu, inevitável. Eu sabia quem ela era, só não entendia por que não me levava.


Quando eu tinha sete anos e minha família morreu em um acidente de carro, ninguém foi capaz de explicar por que eu saí ilesa. Quando a guerra massacrou meu pelotão, ganhei medalhas, me tornei a heroína, a sobrevivente. Mas eu não saí ilesa, não era heroína. Eu só não podia morrer.


No entanto, por muito tempo, esperei poder. Segui minha vida, como se qualquer dia fosse o último. E, pensando que tudo tinha fim, conheci Melissa.


Ela odiava a guerra, como eu. Odiava a medalha que pendurei, dentro de um quadro, na parede, pois dizia que aquilo lembrava como a vida das pessoas valia tão pouco. Tirei o quadro de lá quando nos casamos. E o espaço vazio naquela parede gritou por anos depois que Melissa se foi.


Depois que ela a buscou.


Naquele dia, ela usava um vestido amarelo que ia até os pés. Os cabelos pretos, presos em uma trança, caíam pelo ombro até a barriga.


Eu estava sentada no sofá da minha sala. O sofá que Melissa fez questão de escolher, porque era azul marinho e combinava com o amarelo dos detalhes sobre a mesa de centro. Combinava com as paredes e o piso. Combinava com Melissa.


A morte — eu já entendia quem era — sorriu para mim e foi como se os braços da minha mãe me envolvessem. Eu sentia falta daquele abraço.


— Por que você está aqui? — perguntei, quando me dei conta de que ela havia chegado. Ela me ignorou, olhando para a porta que separava a sala do quarto. — Quem você veio buscar? — Meu coração batia forte no peito, minha respiração saía e entrava sem ritmo. — Quem você veio buscar? — repeti mais alto, me levantando, tentando segurá-la pelo braço, enquanto a morte caminhava para o outro cômodo. — Por favor! — Minhas mãos passaram por ela. Eu não podia tocá-la.


Por favor, não a leve!, minha mente pensou o que nunca fui capaz de externar. Não leve Melissa.


Mas ela a levou. Entrou no quarto, debruçou-se sobre a cama, onde minha esposa dormia serenamente, e a beijou na testa.


— Por que você a levou? — Eu me joguei sobre a morte, mas era incapaz de atingi-la.


— Porque era a hora. — Ela se virou para mim, me encarando, jogando sobre mim o efeito de me ver refletida naqueles olhos de breu.


— E a minha hora? — questionei, secando as lágrimas que caíam pelas minhas bochechas.


— Pensei que sua hora havia chegado trinta anos atrás.


— Ainda estou aqui. Por que não me leva agora se minha hora já chegou?


Ela ergueu o braço direito e tentou tocar meu rosto. Sua mão passou por minha cabeça.


— Não posso.


— Você é a morte, é claro que pode! — Eu estava implorando.


— Abi. Me chame de Abi.


— É o seu nome?


— Eu tenho muitos nomes, Amanda. Depende da cultura, da época, do lugar. Me dão forma, chifres e armas. E eu sempre implico com alguns deles, então, mudo, me transformo, escolho novos nomes. Agora você pode me chamar de Abi.


— Abi… — repeti a palavra algumas vezes, soltando-a no ar enquanto me virava para olhar Melissa, deitada, em paz.


— Ela já foi — Abi lembrou.


— Eu sei… — Eu me sentei ao lado da minha esposa e ajeitei seus cabelos no travesseiro. — Eu sei. — Toquei o rosto dela, desejando que Melissa abrisse os olhos e discutisse comigo por tê-la acordado.


Senti um vento frio entrar pelo cômodo e, quase que por instinto, olhei para a janela, que estava fechada. Abi tinha ido embora.



Eu a vi muitas vezes depois disso. Perto de uma garota caída ao lado de uma moto, na porta da sala do meu chefe, entrando em um ônibus, atrás de um apresentador de TV, na sala da minha vizinha.


Desejei que o mundo acabasse para que eu não a visse mais. Desisti de mim incontáveis vezes para que eu a visse uma única e derradeira vez. Mas Abi nunca pôde me levar. Nem quando implorei de joelhos, nem quando tentei segui-la, nem depois de duzentos anos tentando desvendar seus segredos.


Eu vi o mundo estourar em guerra e caos. Vi a natureza engolir bilhões de pessoas com sua fúria incontrolável. Vi a humanidade se destruir e recomeçar. E pensei que poderia recomeçar também.


Nunca mais fui capaz de abrir meu coração de novo, como abrira para Melissa, porém, por Nicolas, me permiti sentir uma amizade que me fez falta por séculos. Para alcançá-lo, eu me permiti correr entre os destroços de uma cidade antiga, a cidade onde eu vivi com Melissa, sentindo pedras e terra machucarem meus pés.


Nicolas gostava de colecionar objetos do passado; seus preferidos eram os livros — que ele dificilmente conseguia ler, pois eram tão velhos que se desfaziam entre os dedos. Cheguei a contar para ele algumas histórias das quais eu me lembrava, no entanto, minha mente guardava só o necessário para que eu não enlouquecesse com todas aquelas imagens e anos e sons e pessoas. Com todas as coisas que eu havia deixado para trás.


— Me conta uma história hoje? — ele pediu, um dia, deitado em meu colo. O cheiro de terra molhada deixava o ar mais puro e, mesmo com as nuvens escuras prometendo uma chuva mais forte do que a que caíra pouco antes, eu esperava que pudesse ficar com ele ali, do lado de fora de nossa cabana, por um pouco mais de tempo. Olhei para aqueles olhos pretos, quase tão escuros quanto os de Abi, e pensei que poderia passar boa parte da minha vida com aquele garotinho. Que eu poderia vê-lo crescer, se tornar um rapaz, depois um senhor. E que ele poderia me deixar, sim, mas depois de uma vida inteira de histórias.


Abi o buscou seis anos depois.


Achei que nem se eu vivesse por mil anos conseguiria me livrar daquela dor.


Dois séculos mais tarde, o rosto de Nicolas era um borrão na minha memória. Eu me lembrava dos destroços e dos pedaços de livros se desfazendo entre os meus dedos, do cheiro de terra molhada e das nuvens escuras no céu, mas a lembrança dos traços de seu rosto ficaram perdidas no tempo.


Amaldiçoei Abi e me escondi do mundo por tanto tempo que demorei vê-la de novo.


Quando a vi, a tecnologia dominava a sociedade mais um vez; crianças andavam com seus grandes pescoços inclinados para o chão, os olhos, muito maiores que os meus, eram sempre fixos nas telas que traziam nas mãos. Ninguém parecia notar o quanto eu era diferente. Ninguém parecia me notar.


Abi estava sentada em um banco cinza. Atrás dela, um prédio espelhado reluzia a luz do sol, fraca ali, pois estava coberta por uma camada de poluição. Eu a vi olhando para as mesmas crianças que eu olhara antes e, dominada por minha cólera, sentei-me ao seu lado, pronta para discutir com ela até convencê-la a me levar embora.


— Ainda não posso tocar você, Amanda. Espero que saiba que não tenho controle sobre isso. — Ela nem me deixou falar.


— Aposto que você pode fazer algo, mas não quer — acusei, reunindo todo o ódio que sentia dentro de mim. E eu era um poço de ódio. Quase um milênio de ódio.


— Eu não posso.


— Abi…


— Meu nome não é mais Abi.


— O quê?


— Não respondo mais por esse nome. Pode me chamar só de Morte.


— Qual o problema com Abi?


— Foi o nome que um amigo me deu, mas ele se foi. Tive que buscá-lo. Nunca pensei que o buscaria.


— Como assim?


Ela se virou e me encarou. Só então percebi como estava diferente. Seus olhos negros agora estavam turvos, de um cinza escuro, cor de nuvens de chuva. Seu cabelo, antes longo, estava raspado. Até o manto de Abi era cinza. Tudo naquela cidade parecia cinza.


— Há outros seres de vida longa, como você. — Apontou para o meu peito. — Já me encontrei com vários durante o meu trabalho. Busquei alguns deles, outros estão por aí até hoje, desafiando meus poderes, atrapalhando meu serviço. — Ela sorriu, mas seus olhos marejaram. — Muitos anos atrás, conheci alguém quase como você. Alguém que podia me ver. Ele me disse que olhar para mim era como olhar para um abismo. E o abismo era ele mesmo.


A morte olhou para suas mãos escuras e depois para as ruas caóticas. As pessoas não se viam, eram guiadas pelas imagens que carregavam na palma ou — quem tinha dinheiro para pagar — nos olhos.


— Eu reflito vocês, Amanda. — Ela me encarou. — Suas histórias, suas dores. Sou a união de tudo isso. O abismo. O capítulo final.


— E por que eu não tenho capítulo final?


— Talvez você tenha, assim como meu amigo teve o dele. Talvez seu livro só seja longo demais.


— Não quero um livro longo demais — falei alto e firme.


— Sabe qual é o seu problema? — Ela não esperou que eu respondesse. — Você se esconde de sua própria história. Passa suas páginas, uma a uma, sem coragem de preenchê-las.


— Não quero perder mais ninguém.


— Todo mundo perde alguém. Até eu. Você não pode deixar de viver por medo de perder quem ama.


— Mas quanto mais se vive, mais se perde.


— É melhor do que uma vida inteira em branco.


Respirei fundo. Havia algo a fazer além de seguir em frente?


— Quem você veio buscar hoje?


A morte sorriu, de um jeito tão cansado que quase senti pena por ela, e abriu os braços.


— Todo mundo.


— Como assim todo mundo?


— A cidade inteira. — Olhou para a frente, para as pessoas que caminhavam.


— O quê?


Ela apontou para cima e eu vi algo cair do céu. Só tive tempo de fechar os olhos.



— Amanda?


Uma voz doce chamou meu nome.


Distante.


Meus olhos fechados viram o rosto de Melissa. Os cabelos dela voavam com o vento. Mas eu não sentia vento algum.


— Acorde, Amanda.


Abri as pálpebras devagar. Tudo doía.


— Abi… — sussurrei ao ver o rosto dela me encarar.


— Achei que você não fosse acordar. — Ela se sentou, colocando os braços em volta das pernas.


Estava quente.


— Eu morri?


A morte riu. Uma risada estrondosa que cobria até o zumbido alto no meu ouvido.


— Você não morreu. Só desmaiou.


— O que aconteceu? — Tentei me levantar. Não consegui.


— Uma bomba.


— Outra? — Eu estava cansada de bombas e guerras e sangue.


— Vocês humanos não aprendem nunca. Vão se destruir um milhão de vezes antes de aprenderem o que realmente importa.


— E o que importa?


Abi sorriu e olhou para cima. O céu estava escuro.


— Você já viveu mil anos e ainda não descobriu?


— Novecentos e noventa e três, Abi. Será que posso te chamar assim? Gosto do que significa.


Ela sorriu e assentiu, antes de se deitar ao meu lado.


— Como você consegue contar?


— São novecentos e cinquenta e seis anos sem Melissa.


— Nossa… Desculpa falar, mas já passou da hora de você se apaixonar de novo, viu?


— Pra você aparecer do nada na minha sala buscando a pessoa que eu amo e arrancando tudo de mim?


— Sim, pra eu buscar a pessoa que você ama, porque é exatamente isso que eu faço: busco as pessoas que a Amanda ama! Será que um dia, nos milênios que virão, você vai descobrir que o mundo não gira ao redor do seu umbigo?


— Acho que não.



Encontrar outro imortal não foi fácil. Eu imaginava que, talvez, alguém que vivesse tanto quanto eu pudesse ser uma boa companhia. No final das contas, eu é que não era uma boa companhia. Fiquei tanto tempo me escondendo da vida, que desaprendi a viver.


Mais uma vez, como um disco arranhado, o mundo se desfez e se refez. Os humanos voltaram a ser parecidos comigo, sem seus pescoços caídos e olhos esbugalhados. Voltaram a ser humanos, a olhar uns para os outros.


Eu gostava deles, dos humanos mortais, da importância que eles davam para as pequenas coisas, para as picuinhas familiares e o som alto do vizinho. Mil e duzentos anos depois, no meio daquele looping eterno, me senti de volta à minha época, pensei que pudesse, quem sabe, viver como vivera antes.


E vivi tanto que até esqueci que não podia morrer.


Abi veio buscar meus filhos três vezes. Nunca fui capaz de criar alguém imortal como eu. Nunca me arrependi de escolher tê-los. Desenhei seus rostos vezes o suficiente para fixá-los para sempre na minha memória.


Melissa, Nicolas e Joaquim. Os nomes dos meus amores de outro milênio e do amor por um imortal que eu pensei que nunca acabaria.


Mas acabou.


Joaquim, cansado de perder, foi embora. Disse que rodaria o mundo inteiro e conheceria pessoas o bastante para fazê-lo se esquecer. Não o julguei. Já estive no mesmo lugar.


Sei que Abi o buscou. Um dia. Séculos depois.



Encontrar Abi era fácil quando a sociedade estava em caos. Bastava esperar no corredor de algum hospital ou em uma curva perigosa de estrada. Mas naquele século de calmaria, quase quinhentos anos depois que Joaquim me deixara, ninguém mais parecia morrer. Cheguei a pensar que o trabalho dela estava terminado, que não havia mais ninguém para levar, que seríamos nós ali, para sempre, até a eternidade. Até que um pensamento frio, como uma navalha, me cortou ao meio.


E se a hora de Abi tivesse chegado? Ela era a morte, sim, mas será que havia algo superior a ela, ditando as regras do jogo? Será que alguém poderia levá-la?


Senti algo quente descer pela minha bochecha esquerda e aquele gelo que se formou dentro de mim se expandir. O que eu faria sem Abi?


Aquela ideia me assustou. A morte era minha mais antiga conhecida. Pensar nos olhos dela era o que me acalmava em todas as noites de insônia que tive. Eu precisava de Abi com a mesma força que a temia. Ela não podia simplesmente parar de existir e me deixar aqui.

Busquei por ela. Esperei por ela.


As poucas pessoas que eu conhecia foram envelhecendo e adoecendo. Ninguém mais nascia. A natureza, por fim, se cansou de nós.


Aguardei por Abi, sentada no tronco de uma árvore pequena. Plantei aquela árvore, como muitas outras; eu a vi crescer e sabia que a veria envelhecer e morrer.


Vi a morte sair de uma casa simples que eu ajudei a erguer. Eu mesma não tinha mais uma casa; vivia aqui e ali, visitando os poucos que restavam.


— E nos encontramos mais uma vez. — Ela vinha em minha direção. A barra de seu vestido branco balançava enquanto ela andava. Seus cabelos longos e cacheados caíam sobre as costas. Eu nunca a vi tão bonita.


Abi se sentou ao meu lado e respirei o perfume que vinha dela. De algum jeito, que eu não soube explicar, me lembrei daquele dia no carro com meus pais. Os cabelos da minha mãe estavam soltos sobre o encosto do banco. Meu pai roncava com o rosto encostado no vidro do carona. Minha irmã ouvia alguma batida forte que escapava através do isolamento do fone de ouvido. E eu estava lá, olhando para a vegetação ao lado da rodovia, sempre ficando para trás sem nunca realmente ficar para trás. Eu não vi quando o caminhão bateu no nosso carro, só senti a força da batida me quebrar. E o cheiro. O mesmo cheiro que vinha dela agora.


— Seu trabalho não vai acabar nunca?


— Todos eles se foram, Amanda — ela revelou, de um jeito tão doce que parecia estar cantando uma canção de ninar.


— Como assim?


— Não há mais quem buscar. Pelo menos não por enquanto. Você sabe, a humanidade vai se erguer de novo, cedo ou tarde.


— Como, se todo mundo já se foi?


— Você ainda está aqui, não está?


Ela sorriu para mim. Seus olhos voltaram ao tom preto de sempre. Havia um brilho neles.


— Então é isso o que eu sou? A vida? O seu contrário?


— Meu contrário? Não. Você também é um abismo, Amanda.


Eu sorri.


— E no fim dos tempos, esse abismo é tudo o que a gente tem.


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