O bolo de boas-vindas

Atualizado: Jun 2

Acordo religiosamente todos os dias às seis da manhã. Mas hoje é diferente. São cinco e meia e já estou de pé. Não consigo dormir bem quando alguém que amo está na estrada, viajando. Então, eu, que sempre dormi feito uma pedra, acabei acordando antes do costume. Lavo o prato e o garfo que deixei na pia na noite anterior, pego o copo que está perto da torneirinha do filtro de barro e lavo também, só para colocá-lo de volta no lugar.


Hoje as juntas dos meus dedos estão doendo menos. Foi uma boa decisão deixar para mexer nessa água fria apenas agora.


Dou uma olhada no terreiro, entre as grades da abertura que fica acima da pia. Os panos de prato que deixei secando ontem no varal já devem estar esturricados. Observo o chão, há algumas mangas caídas. O pé está cheio.


Espero que Alles ainda goste de mangas, senão, vou acabar perdendo todas.


Estalo a língua. Não gosto de desperdício. Quando eu era menina, muitos anos atrás, meu pai olhava para mim com aqueles olhos verdes e dizia: “Aparecida, minha filha, pobre não deixa nada estragar”. Sinto saudade do meu pai. Ele me criou sozinho, eu e meus irmãos. Fui a única que herdou a pele negra dele, mas não herdei os olhos verdes. Os meus são castanhos, como os da minha mãe. Ou como a lembrança que tenho dela. Queria ter uma foto, mesmo que fosse daquelas bem pequenininhas, mas perdemos tudo quando eu ainda era nova e o rio São Mateus subiu mais do que o normal até para uma enchente.


O celular apita com o despertador. Não gosto dessa porcaria e sempre acordo antes desse barulho enjoado começar a tocar. Mas esqueço de desligar. Já pedi para o Marcos mudar e colocar uma música do Padre Zezinho, mas o menino não escuta ninguém. Fica agarrado naquele aparelho que parece grudado em sua mão. Acho que vou pedir para Alles fazer isso para mim. Alles, sim, é uma boa criança.


E é a única pessoa que meus filhos colocaram no mundo que não reclama por eu ainda dizer “criança”, apesar de seus dezesseis anos. Miguel, com nove, já enche a minha paciência.


Jovens…


Termino de passar o rodinho na pia, estou criando coragem para ir até o quintal pegar os panos, quando o celular pia mais uma vez.


— Coisa chata! — resmungo indo até o aparelho que está em cima da mesa, na copa. Minha chateação suaviza quando vejo a notificação de uma mensagem de Alles.


Tô chegando, vó!


Daqui umas duas horinhas.


E manda uma foto do rostinho. Dá para ver as cortinas feias do ônibus atrás. Dá para ver o cansaço no rosto da criança, depois de mais de vinte horas de viagem. Não sei por que minha filha foi se mudar para tão longe. Sei que não gostava de morar no interior do interior de Minas Gerais, mas há cidades grandes mais perto daqui.


Gravo um áudio, porque não sei digitar direito nessa tela.


— Tudo bem, anjo! Vovó vai te buscar às oito lá no ponto.


Precisa não, vó.


— Claro que precisa.


Fico esperando o sinalzinho ficar azul, mas não fica. Nem dá dois vêzinhos. O ônibus deve ter saído da área de cobertura da rede. Então, bloqueio a tela (coisa que aprendi com Marcos) e deixo o celular em cima da mesa.


Ainda tenho muito o que fazer.


Abro o armário da copa, onde guardo as compras, remédios e outras coisinhas, e pego meu caderno de anotações e a bolsa pequena onde deixo parte da minha aposentadoria. Gosto de ter algum dinheiro à mão para urgências. Eu me sento à mesa, confiro o dinheiro — tudo certo — e analiso minha lista de afazeres de hoje.


Preciso ir à padaria comprar o pão rainha que Alles gosta.


Preciso ir ao mercado do Ivanir comprar um pote grande de doce de leite.


Não posso esquecer o remédio da pressão. Mas já estava esquecendo.


Volto até o armário e pego a Losartana. Depois vou até a cozinha e encho o copo, que um dia foi o pote pequeno de massa de tomate, com água do filtro. Tomo o remédio. Assim que volto à copa, coloco tudo no lugar.


Não me sento de novo, só dou uma última olhada no caderno. Minhas vistas são cansadas, mas esqueci de pegar os óculos de leitura. Parece que está tudo certo. Confiro a informação que vem logo abaixo do lembrete diário do remédio:


Entrega do bolo: sete e meia.


Olho no relógio da parede da sala, antes de ir até o quarto pegar minha bolsa — não posso esquecer de conferir se tudo que preciso está na bolsa —, são seis e vinte e três.


A padaria já está aberta, mas o mercado do Ivanir só abre às sete. Se eu for devagarinho, dá tempo de fazer tudo sem pressa.


Confiro a bolsa. Eu estava esquecendo de pegar o dinheiro na bolsinha. Volto até a copa, pego a quantia necessária e depois deixo tudo como estava antes.


Tranco a casa e jogo a chave no compartimento da bolsa onde sempre a coloco. Terezinha me cumprimenta assim que saio.


— Tá cedo, Paricida.


— Hoje é um dia especial!


— Ah, é? Aniversário de alguém? — Ela se apruma em sua cadeira branca. Eu e Terezinha somos vizinhas há vinte anos. E há vinte anos ela se senta todas as manhãs na varandinha em frente à sua casa para ficar olhando o movimento da rua. Não sei exatamente movimento de quê… — Aniversário de morte? — Tenta mais uma vez quando não respondo.


— Não, não. — Preciso dizer algo para que ela não insista nas perguntas. — É que Alles vem passar um tempo aqui em casa comigo. Vou fazer um cafezinho de boas-vindas.


— Ah… — O olhar dela se perde. Acho que não sabe de quem estou falando.


— Já vou. Bom dia para você, Terezinha!


Sigo meu caminho devagar, pensando se devo comprar novos lençóis para a cama de solteiro onde Alles vai dormir. Pondero que, por enquanto, é melhor não. Comprei novas roupas de cama no Natal passado, quando a família inteira resolveu vir me ver, de última hora.


Odeio coisas de última hora. Mas aquela noite de Natal foi uma das melhores da minha vida. A família em volta da mesa e espalhada pelos cômodos. Todo mundo sorrindo para brigar depois, e brigando para fazer as pazes e brigar de novo mais tarde.


O último e grande motivo de brigas foi sobre políticos que eu só vejo no jornal. Uns homens brancos e velhos, com cara de ruins. Não entendo como o povo ainda vota nessa gente. A única hora em que realmente me irritei foi quando Juliano, meu neto mais velho, quis tirar a foto do Lula da minha parede. Nunca que eu ia deixar.


Alles nunca entra nessas brigas. Não que eu já tenha visto. Sempre se isola em um canto quando a gritaria começa. Às vezes, eu gostaria de ouvir mais gritos e menos silêncios, mas não acredito que seja isso o que Alles tem a oferecer ao mundo.


Sigo andando, do meu jeito vagaroso. É o máximo que meus joelhos conseguem fazer nessa altura da minha vida.


Só quando avisto a porta fechada do mercado do Ivanir é que percebo que deixei o celular sobre a mesa da copa. Alles deve ter respondido minha mensagem. Espero que esteja tudo bem.


Passo pelo mercado, tem uma folha sulfite pendurada avisando que só abre às sete da manhã. Vou até a padaria que fica logo ao lado. Entro pela primeira das duas portas abertas.


— Bom dia, dona Cida! Como a senhora está?


— Vou bem, Josué! — Dou uma boa olhada no rapaz. Ele estudou na última turma para a qual dei aula. Agora está um homem feito já.


— E você, como vai a Silvinha?


Ele conta um pouco sobre como vão as coisas em sua casa, enquanto coloca alguns salgados na vitrine.


— E a senhora vai querer o que hoje? — pergunta depois de terminar o que estava fazendo.


— Vou querer dois pães-rainha e quatro pães de sal.


— O rainha tá saindo agorinha!


Enquanto espero, conversamos um pouco sobre a política na cidade e sobre a obra para o novo sistema de captação de água que nunca fica pronta.


É uma conversa agradável, mas começo a ficar com pressa quando vejo que já passam das sete da manhã. Mas, antes que eu possa ficar impaciente pela espera, os pães chegam, Josué os embala e me entrega as duas sacolas. Pago e agradeço, sempre com um sorriso no rosto.


O mercado do Ivanir já está aberto quando saio. Ele e o rapaz que o ajuda — infelizmente, nunca me lembro do nome dele — estão organizando alguns produtos do lado de fora, na calçada.


— Bom dia! — cumprimento ao me aproximar. O jovem sorri para mim, enquanto Ivanir entra na loja e vai para detrás do balcão.


— Bom dia, dona Cida. Veio comprar doce de leite? — Abre um sorriso.


Sorrio também, abrindo os braços, como se confessasse minha culpa.


— Vim. — Faço um biquinho, depois dou uma risada baixa.


Ele vai direto até uma das prateleiras onde é possível encontrar certa organização em meio ao caos. Há tantas modalidades de produtos à venda aqui. Bem mais completo que aquele supermercado gigante onde não encontro nada do que gosto.


Ivanir me entrega o pote de doce de leite, faz a cobrança e eu agradeço, indo embora feliz da vida. Falta pouco para a chegada de Alles, então, acabo andando mais depressa do que na vinda. Meus joelhos doem um pouco, mas não me importo. Chega um momento da vida em que nos acostumamos com a dor. Ela sempre está ali, quando você se levanta da cama, quando anda, quando fica parada, quando se deita.


Com dor mesmo, chego em casa, só no tempo de guardar o pote na geladeira e colocar as sacolas sobre a mesa. Marilena, a doceira onde encomendei um bolo especial, me chama.


Grito que já vou, enquanto pego o dinheiro dentro do armário.


Quando saio, vejo a mulher parada, segurando uma tábua redonda.


— Eu levo lá para a senhora! — diz, solícita, assim que abro o portão. Marilena entra na casa e coloca o bolo sobre a mesa, ao lado das sacolas de pão. Pego o dinheiro contadinho e entrego para ela, agradecendo. — Dona Cida. — Ela se vira para mim, antes de sair. — A senhora tem certeza que não está escrito errado?


— Tenho sim! — Abro um sorriso que não parece convencê-la. Mas a doceira apenas concorda com a cabeça e vai embora. Olho para o bolo sobre a mesa, quatro camadas em cores diferentes: amarela no topo, seguidas por branco, roxo e preto. É uma combinação diferente e bonita.


Aproveito o tempo que ainda tenho para arrumar a mesa e deixar tudo bem bonitinho para quando Alles chegar. E ainda preciso ir até o ponto de ônibus. Acho que não vai dar tempo, estou mais lenta em meus movimentos do que esperava.


Uma voz doce me chama.


Alles chegou.


Olho rápido para o relógio na parede, são sete e cinquenta e dois. O ônibus deve ter adiantado.


— Vó? — Alles vai entrando, como todo mundo faz. Assim que me vê, abre um sorriso enorme. Tinha tempo que não via minha criança.


— Olha só como você está grande! — Corro para um abraço apertado.


— Grande, vó? E eu sou grande desde quando?


Alles é quase meia régua maior que eu.


— Desde agora.


— Eu tava morrendo de saudade da senhora! — revela, me apertando mais forte. Um cheirinho de bala de hortelã e ônibus me atinge. Nesse momento, não há cheiro melhor.


— Como você está? — pergunto, quando nos soltamos.


— Cansade! — Solta um suspiro, deixando a mala de rodinha perto do sofá e tirando a mochila das costas e colocando ao lado.


Ainda estou me acostumando com esse jeito diferente de Alles falar. Mas não tenho problema nenhum em aprender algo novo, um novo jeito de ver o mundo e de me comunicar com as pessoas. Dei aula de português por trinta anos, vi a Língua mudar muito nesse tempo. O que é o novo senão uma oportunidade de incluir quem é diferente?


— Vem tomar um cafezinho… Bem, no caso eu acabei esquecendo de fazer o café! — Nossa, como é possível que eu tenha pensado em tudo e esquecido logo o principal?


Alles sorri.


— Pode deixar que eu faço! — diz, já caminhando em direção à cozinha.


— Que isso? — Coloco a mão à sua frente. — Claro que não!


— Mas vó…


— Você viajou mais de vinte horas! — Ergo minha mão ao encontro das mãos magrelinhas de Alles. — Vem, senta aqui que mandei fazerem um bolinho especial para você.


Coloco Alles na cadeira, em frente ao bolo e sigo para a cozinha.


— Ô vó! — A voz se perde no ar, cortada. Olho para trás. Alles está com os olhos marejados, encarando o bolo. — A senhora… — Não consegue terminar.


— O que foi, meu bem? — Fico preocupada e me aproximo.


— A senhora fez um bolo nas cores da bandeira não-binária? — Pisca para mim e vejo uma lágrima cair por sua bochecha.


— Fiz sim, meu bem! — Sorrio. — Vi no Goógli que é assim.


Agora Alles está chorando de soluçar. Sei que não é de tristeza, mas sinto meu coração apertar. Eu me abaixo, para ficar pertinho, e pego em suas mãos.


— Chora não! — peço, baixinho.


— Não consigo, vó. A senhora… — A voz corta de novo. — A senhora é, tipo, a primeira pessoa da família que me aceita de verdade, do jeito que eu sou.


— É porque esse jeito é lindo. Tudo em você é lindo! — Limpo as lágrimas insistentes no rosto de Alles e me levanto.


— Agradeço por tudo, vó… — Sorri.


— Vem cá. — Abro os meus braços para um abraço, que é aceito. Alles chora mais um pouquinho e eu choro junto. Vou ficar com as vistas ruins o dia todo. Mas vale a pena. — Esse é o meu jeito de dizer que estou feliz por você estar aqui.


Quando nos soltamos, Alles volta a se sentar na cadeira. Ainda há lágrimas para secar com a camisa preta que veste.


Dou uma olhada para o bolo em cima da mesa, ainda intacto.


As palavras “bem-vinde” não são um erro.


Elas nunca serão um erro.

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