Seis de novembro

Atualizado: Jul 24

Conto de Natal por Thaís Herculano

O tecido da minha blusa está grudado nas costas. O ventilador, sobre uma cadeira de forma totalmente improvisada, sopra um ar morno. Olho para a rua de casa e ela não denuncia os raios, trovões e a enxurrada da noite anterior. O dia começou com um sol forte e as poças de água desapareceram em poucas horas. Agora, a única lembrança da noite de tempestade é o dia quente demais com a sensação térmica elevada.


Olho para o céu e vejo um grupo de nuvens escuras se reunindo lentamente. Se minha mãe estivesse aqui, diria para eu não me preocupar, afinal, quando o céu escurece daquele lado, a chuva passa longe da nossa cidade.


Passam das três da tarde e eu ainda não terminei um trabalho que parecia simples: enfeitar a porta da sala com pisca-pisca. Depois de tentar e falhar, decidi parar e respirar um pouco, mas meus pensamentos se perderam enquanto eu me lembrava da noite de chuva e do pesadelo.


Volto a mim e, quando tento dar o primeiro passo para sair de perto de toda a bagunça, percebo que meu pé está preso no cordão de luzes que deixei cair no chão. Respiro fundo e desenrolo o pisca-pisca do tornozelo. Estou cansada e frustrada. Além disso, agora preciso pensar em um plano B para tentar salvar a decoração de Natal que planejo desde agosto.


A porta da casa que Paula e eu alugamos no início do ano só é separada da rua por uma calçada. A cidade é pequena e não é perigosa, uma das razões por termos decidido morar aqui. Apesar de não oferecer tantos perigos, ainda tem todo o resto. Neste momento específico, há um ou dois vizinhos achando estranho, não o fato de um casal de mulheres bissexuais morarem aqui, e sim o fato de ter uma mulher gorda e desajeitada tentando começar uma decoração de Natal no dia cinco de novembro.


Caminho em direção à entrada e me distraio com o cachorro da vizinha latindo para um vendedor de queijo. Tropeço na caixa de enfeites natalinos e quase caio.


— QUE MERDA! — grito alto demais.


— Tudo bem aí, menina? — pergunta minha vizinha, que passa na rua com uma sacola da mercearia nas mãos.


— Tudo certo, dona Marta, eu só tropecei. — Ela me olha da cabeça aos pés.


— Cê tá muito adiantada. Decoração de Natal a gente monta no final do mês — diz enquanto segue seu caminho, e não me dou o trabalho de responder.


Não costumo seguir o calendário dessa forma. O mais perto da tradição católica que já cheguei é namorar Paula, mas ela não pisa em uma igreja desde o casamento da irmã há mais de cinco anos. Além disso, esperar até o final de novembro significa ficar com a casa decorada por menos tempo do que eu gostaria. Então, pelo menos para mim, cinco de novembro é uma data perfeita para a decoração ficar pronta.


Meu celular vibra no bolso.


“Faz o café, tô levando pão de queijo”.


Entro em casa e fecho a porta. Apesar da irritação com as luzes e a vizinha, olho para a pequena árvore de Natal no canto da sala. O dia anterior, pelo menos no campo das decorações natalinas, havia sido promissor. Enquanto ficava de babá do meu sobrinho de dois anos, montei a árvore e coloquei os enfeites. Ele me ajudou, escolhendo onde colocaríamos cada “gol”, que é como ele chama as bolinhas.


Olho novamente para a porta, que ri da minha cara exibindo o resto de fita que não consegui remover. “Fixa tudo e não danifica”, dizia o anúncio. Se fosse uma propaganda real, o slogan seria: “Danifica tudo e não fixa.”


Vou até o banheiro lavar o rosto para me livrar do suor. Olho no espelho e vejo que meus cachos estão precisando de cuidado. Faço uma nota mental para lembrar de lavar o cabelo mais tarde. Encaro meu próprio rosto mais uma vez, pensando em como a vizinha não teve tempo de dizer como ele era bonito.


Hoje em dia, me olho com muito mais gentileza. Ainda é um processo que, vez ou outra, pessoas como dona Marta abalam. Essas pessoas não têm nenhum receio em nos dizer coisas que não gostariam de ouvir. Eu não sou uma “morena” de rosto bonito. Sou preta e sou linda por inteiro. Mas as palavras e olhares de muitas donas Martas ainda fazem com que eu sempre pense duas vezes antes de viver a minha vida de um jeito normal.


Meu momento de reflexão é interrompido por Paula, que está chegando em casa. Lembro da mensagem e corro para a cozinha para fazer o café. Escuto enquanto ela resmunga, imagino que esteja tentando desviar dos cordões de luzes que estão no lugar onde ela precisa passar.


O cheiro do pão de queijo entra na cozinha primeiro. Segundos depois, Paula aparece na porta carregando o saquinho de papel pardo. A pele branca está levemente avermelhada. O boné na cabeça disfarça o cabelo bagunçado que ela ficou com preguiça de arrumar antes de sair para pagar os boletos do mês. Ela está vestida com o que eu costumo chamar de uniforme: uma calça jeans surrada e uma camiseta da banda que eu não consigo pronunciar o nome.


Paula não é gorda, mas também não é magra. As pernas compridas, e a barriguinha saliente formam um conjunto bastante agradável para mim. Ela se aproxima, e apesar das duas estarem estressadas e com calor, não deixamos de rir quando nossas barrigas se encontram antes dos lábios.


Minha expressão de cansaço volta antes que eu diga qualquer outra coisa. Pela casa em desordem e enfeites fora do lugar, não é difícil para ela imaginar o que aconteceu.


— Alissa, se você ficar desanimada assim com o Natal, é capaz do Papai Noel mandar cancelar as festas esse ano. — Ela me encara de um jeito doce.


— Você acha que consegue me ajudar? — digo, depois de um suspiro longo de desânimo.


— Não posso te ajudar agora, preciso revisar o livro.


— Tudo bem se não puder. Você nem gosta de Natal pra começar.


— Uai, mas eu quero ajudar.


— Você não tem tempo, amor, e eu não quero ficar esperando. Quanto mais o tempo passa, menos tempo a casa vai ficar enfeitada — digo e vejo que Paula está segurando o riso. — Cê não me leva a sério!


— Levo, sim, Li. Só tô achando engraçado porque nem as lojas perto da praça estão enfeitadas ainda. Acho que agora o povo daqui vai seguir o seu calendário natalino. — Ela desvia a tempo do pano de prato que jogo em sua direção.


Vou até o armário, que fica acima da pia, e pego duas canecas. A água do café ainda precisa de alguns minutos no fogo. Paula me acompanha até o pequeno balcão, onde deixou o pão de queijo, depois, vai até a geladeira e pega uma caixa de leite.


Terminamos o lanche da tarde e Paula segue para o escritório levando a caneca cheia de café. Sei que, em alguns minutos, ela vai se levantar para pegar outra. Também sei que ela não pode me ajudar com a decoração e que, provavelmente, só vai me avisar quando se der conta de que se enrolou mais uma vez com o prazo da revisão.


Em um relacionamento perfeito, minha namorada ideal não seria Paula. Seria alguém apaixonada pelo Natal como eu, que veria todos os filmes temáticos comigo em uma tarde de domingo. Mas, apesar de não ser o relacionamento perfeito, encontramos o nosso equilíbrio nessa bagunça que somos juntas.


Não consigo acompanhar o gosto musical dela e não dou conta de maratonar séries durante a madrugada. Mesmo assim, de vez em quando, me pego ficando acordada até tarde porque o episódio da série estava interessante. E Paula até faz pipoca para ver um filme natalino com um casal padrão se beijando na aurora boreal, mesmo com o ventilador na nossa cara rodando na velocidade três. Nossa bagunça é perfeita.


Pego minha agenda e vejo tudo o que preciso resolver amanhã em Valadares. Lembro de colocar uma guirlanda na lista de compras. A do ano passado não resistiu ao tempo e ficou totalmente destruída dentro da caixa.


O clic do mouse e o tec do teclado seguem a todo vapor no escritório. Vou para a sala deixar o espaço menos bagunçado. Separo o que ainda será aproveitado, jogo restos de enfeites quebrados no lixo e guardo os materiais que não preciso em uma caixa que vai para o armário do escritório.



Estou cochilando no sofá quando Paula senta ao meu lado, me acordando. Ela está me encarando com uma expressão de cachorro que caiu do caminhão da mudança. Olho a hora no meu celular, são quase meia-noite.


— Desculpa, Li, fiquei toda enrolada com o livro. Não cheguei nem na metade.


— Tudo bem, amor — lamento.


— Me desculpa. Eu não devia ficar prometendo coisas.


— Não devia mesmo, Paula. Mas tá tudo bem, é sério. — Não estou mentindo e ela sabe.


— Amanhã você vai sair daqui que horas?


— A Manu vai passar aqui umas dez — digo me ajeitando no sofá. — Merda!


— O que foi, mulher?


— Esqueci de lavar o cabelo. Vou ter que acordar mais cedo.


Me levanto do sofá e vou para o quarto. Pego algumas peças de roupa que estão dobradas sobre a cama e coloco em cima da cômoda. Paula me acompanha, ainda com cara de culpa. Ela me ajuda a ajeitar a roupa de cama em silêncio.


— Li, vai dar tempo de aproveitar a sua decoração de Natal.


— Eu sei, meu bem. Mas não é minha decoração de Natal, é nossa.


Passo por Paula antes de seguir para o banheiro, ela se posiciona na minha frente para ganhar um beijo de boa noite.


Quando me deito para dormir, ouço o clic e o tec no escritório. O som não me incomoda. Os barulhos vão ficando cada vez mais distantes, até que adormeço.



Estou na rua e olho para a fachada da minha casa. É noite e a cidade está completamente escura. Vejo os raios caindo ao longe, mas se aproximando depressa demais. Bato na porta de casa e ninguém responde. Grito e sigo sem resposta. Saio correndo pelas ruas da cidade a procura de um abrigo. Bato na porta de alguns vizinhos. Ninguém atende.


Corro em direção à saída da cidade, o último raio caiu perto. Um clarão ilumina o topo do morro e se aproxima de mim lentamente. Corro mais rápido, tropeço e caio. Ao me levantar estou novamente na porta de casa, mas onde haviam paredes, agora só tem água. Uma água suja, barrenta. Estou paralisada, não consigo me mexer.


Abro os olhos e ouço um trovão. Vejo o clarão na janela. Sinto um aperto no peito e o medo da escuridão volta a me apavorar. Ainda estou congelada, não consigo me mexer. Sinto que, a qualquer momento, uma respiração gelada soprará em meu rosto. Tento me mexer e o desespero toma conta da situação.


Acordo quando sinto os braços de Paula ao meu redor, ela passa a mão pelo meu rosto e só então percebo que estava chorando. Ela me aperta em seus braços, me acalmando até que eu volte a dormir.


Na manhã seguinte, acordo exausta. Depois de lavar o cabelo e tomar café, ligo o computador para enviar um orçamento que me pediram por e-mail. Confiro se os posts dos clientes estão programados e espero o tempo passar.


Antes de sair de casa, vou até o quarto e dou um beijo em Paula. No espelho do banheiro, deixo post-it colado:


“Obrigada por me abraçar. Deixei café pronto. Amo você”.




A irmã de Paula me deixa na porta de casa no início da noite. O dia de resolver problemas e fazer compras na cidade grande ganhou um capítulo à parte quando eu não encontrei uma guirlanda perfeita para ambientes externos. Manu, prontamente, visitou mais lojas comigo, não me deixando desistir até encontrar um modelo perfeito. Penso em como esse simples gesto simboliza o que é a família de Paula. Nossa família.


Minha família de sangue participa da minha vida o quanto eu permito, porque ainda é difícil falar com eles sobre alguns assuntos. Mas a família de Paula me acolheu. O apoio que sempre tive dessas pessoas faz com que eu me sinta parte. Ganhei sobrinhos que enchem minha casa de amor. Almoços de domingo, festas de aniversário e motivos para voltar a ter um álbum de fotografias.


Pego minhas sacolas no porta-malas e me despeço de Manu.


A casa está totalmente escura. Coloco as sacolas no chão e procuro a chave na bolsa, pensando onde minha namorada pode estar. Antes que eu consiga encontrar uma resposta ou as chaves, luzes coloridas piscam na minha frente. Vermelho, amarelo, azul e verde. Todas estão acesas, depois, apagam lentamente. Agora, elas piscam rápido e meu coração acompanha o ritmo.


A porta de vidro está totalmente iluminada quando é aberta, e Paula aparece sorrindo com um gorro vermelho na cabeça. Ando devagar em sua direção, estou com os olhos marejados, mas não quero que ela fique rindo da minha cara por ter chorado por uma decoração de Natal. Antes que ela me olhe, escondo o rosto em um abraço.


— Surpresa — ela fala baixinho no meu ouvido.


— Você fez tudo sozinha? — Me afasto para olhá-la nos olhos.


— Quase... Minha mãe passou aqui mais cedo. — Ela nem disfarça a cara lavada.


Paula se afasta com as mãos nos meus ombros e me olha nos olhos. Tenho muito o que dizer, mas não quero arriscar cair no choro. Estou emocionada porque minha porta pode ser vista a quilômetros. Faço a única coisa que consigo no momento. Pego minha namorada pela mão e caminhamos em direção ao outro lado da rua. Paro para contemplar o trabalho.


Essa casa simboliza um recomeço e o primeiro Natal nela precisa ser especial. Penso em tudo o que ainda vamos viver aqui. Penso que nossos sobrinhos vão se encantar com essas luzes tanto quanto eu. Penso nas vezes em que eu quis uma decoração de Natal. Agora, tenho a decoração e uma família para aproveitá-la comigo. Meu coração volta para o ritmo normal quando Paula solta minha mão e apoia a cabeça no meu ombro.


Voltamos para casa e, antes de entrar, pego a guirlanda na sacola. Coloco o enfeite na porta e a decoração fica completa. Agora, de acordo com a nossa tradição, seis de novembro me parece a data perfeita para decorar a casa para o Natal.


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