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Capítulo 1

Jen

2251

Há uma lenda antiga sobre uma viajante que se perdeu no tempo. É a história que aterroriza todos os agentes de primeira viagem para que eles não cometam o pior erro que podem cometer: voltar para longe demais.

 

Às vezes, em momentos assim, isso era tudo o que eu queria. Sumir na história. Desaparecer no tempo. Enquanto não tenho esse luxo, sigo correndo.

 

A dor nos joelhos não pode me parar. O peito queimando não pode me parar. Preciso continuar. Então continuo. Um dos meus pés afunda na lama antes que eu consiga ver o que está na minha frente e uma luz forte me atinge antes que eu possa recuar. O drone que me ilumina é silencioso, mas os passos atrás de mim não são. Eles me encontraram pela terceira vez só hoje. Não sei mais onde posso me esconder.

Se seguir em frente, posso afundar; se voltar atrás, vão me prender. 

Miro no drone sobre mim, estico o braço e atiro. O choque faz a luz estourar e apagar. Tento correr de novo, mas os pés afundam mais, me deixam lenta. Olho para a luz amarela (que já foi verde) embaixo da minha pele, só tenho energia o bastante para duas viagens, com muita sorte. Mas para onde eu iria?

Uma voz robótica grave ecoa na escuridão e as luzes distantes de novos drones fazem meu pensamento acelerar. Eu poderia voltar para casa, já que está tudo perdido, e passar meus últimos dias (ou minutos) com eles. Eu poderia só tentar observá-los pela grande janela de vidro da sala que costumava ser minha também, mas corro o risco de colocar todo mundo em perigo. De novo.

Preciso me esconder em outro tempo. O mais longe possível de todo esse caos e o mais próximo possível do nada. Um fim do mundo qualquer em uma época esquecida na história.

Quem sabe se for longe o bastante eu consiga desaparecer.  

Fecho os olhos, me concentro, e aperto o punho esquerdo com o polegar direito. Mas, antes que eu consiga ativar o manipulador temporal, duas mãos agarram minha camisa e tentam me puxar para trás. Aperto minha pele com ainda mais força, concentrando todas as energias do meu corpo no mais distante possível. A típica luz branca e forte me desnorteia por um momento, como sempre, mas algo dá errado. Em vez da luz dar lugar a um novo espaço diante de mim, tudo fica escuro. Sinto as pontas dos meus dedos formigarem, até os braços e pernas ficarem dormentes. Então apago de vez.

 

***

 

Acordo e o cheiro de terra me atinge antes que eu possa raciocinar. Sei que está de dia sem precisar abrir os olhos. Há uma luz muito forte, que poderia ser artificial, mas é quente demais. Estico as mãos, tateando o solo abaixo de mim, e abro as pálpebras com cuidado. Minha pele arde quando bato o braço em alguma coisa. Minha arma. Puxo-a para perto de mim e a guardo no coldre da calça.

Não sei quanto tempo estou aqui deitada no chão, estirada sob um sol absurdamente forte, mas foi o suficiente para deixar minha pele vermelha.

Eu nunca tinha apagado durante uma viagem no tempo. Há uma primeira vez para tudo nessa vida mesmo.

 

— Cê tá bem?

Ouço uma voz aguda e meio rouca, então me sento com bastante dificuldade. O corpo todo duro. Tento molhar os lábios, mas minha boca está seca, então respondo num sussurro:

— Não muito. — Quase não reconheço meu próprio timbre.

 

Coloco a mão sobre a testa, na tentativa de tapar o sol e poder olhar para a pessoa que está parada em pé a uns dois metros de mim. É uma senhora negra, já idosa, usando um chapéu de palha enorme sobre a cabeça, numa postura jovial. As costas retas, os braços cruzados. Uma posição de defesa.

— Como cê chegou aí?

Olho em volta, querendo deixar bastante explícito que estou perdida. Há árvores baixas, com várias bolas verdes e alaranjadas. Vi sobre elas na preparação, mas acho que nunca estive em um tempo onde existissem… busco a palavra na memória. Laranjeiras. 

— Não me lembro muito bem — minto, esfregando o rosto.

— Não sei que tipo de droga vocês jovens estão usando hoje em dia, mas vi no jornal sobre pessoas desaparecendo por dias e depois voltando pra casa sem se lembrarem de nada. — Ela se aproxima de mim, batendo as mãos nas laterais do corpo. Consigo vê-la melhor dessa distância. As rugas marcam o rosto e o pescoço, e o cabelo todo branco e preso faz a base para o chapéu. Ela é muito bonita. Um pingente escapa da blusa dela, pendurado em seu pescoço por uma correntinha dourada. — São essas festas estranhas que enchem os menino tudo com bebidas fluorescentes. No meu tempo não tinha isso. 

Já que ela mesma oferece uma explicação para o fato de eu ter acordado sem memória (o que é mentira), apenas deixo que fale. Não confirmo nem nego nada. 

Ela me ajuda a levantar e estico o corpo, sentindo todos os meus ossos estalarem. A pele ardida incomoda bastante, mas não me importo.

— Nossa, como cê tá vermelha! — A senhora analisa meu rosto. — Gente branca não pode mesmo ver um solzinho. Vem. — Ela toca com o maior cuidado do mundo nas minhas costas. — Vamos entrar que tenho uma pomadinha ótima pra queimadura assim.

E eu vou, porque, afinal, o que mais eu poderia fazer?

Após andar alguns passos, vejo a casinha simples por trás das laranjeiras. Eu nunca tinha visto uma construção como essa. Parece mesmo um lugar perdido no tempo. Tomara que seja isolado o bastante para me fazer sumir dos radares da Facção. Ou que, pelo menos, isso os atrase um pouco para que eu consiga realinhar os planos e tentar voltar para o meu tempo.

Sei que tudo está mais perdido do que ganho, mas ainda há uma pontinha de esperança de que posso consertar o erro que cometi. Uma faísca pequena, quase apagada, de que ainda é possível encontrar o começo da ramificação que destruiu toda a minha vida.

Olho para o meu pulso, a luz quase imperceptível sob a pele já está vermelha. Uma viagem. Só mais uma viagem. Desvio a atenção para os meus braços, bastante avermelhados pelo sol. Só preciso de tempo… e uma pomadinha.

Capítulo 2

Violeta

2016

Normalmente, os Natais não eram a minha data favorita do ano. Minha mãe, por outro lado, gostava muito da festa. Via uma mágica única no ato de pendurar os enfeites, na coisa de cozinhar na véspera, de preparar presentes para todo mundo. Meu pai não poderia se importar menos, mas a indiferença dele nunca afetou nenhum dos planos. A gente comia bem, ficava olhando as luzes e em alguns anos contávamos até com visitas animadas para compartilhar o momento. Foi só por essa sensação de familiaridade que continuei voltando para a casa deles no fim do ano mesmo depois de ir para a faculdade.

Dessa vez, entretanto, eu tinha uma motivação a mais que me trouxe para casa dias antes do planejado e com uma animação atípica que não passou despercebida. Quando meu pai me buscou na rodoviária, reparou logo de cara que eu estava com uma ansiedade contida, um sorriso que provavelmente soava meio maníaco no rosto, e tinha as mãos inquietas.

— Que isso, Violeta? Tá apaixonada? Quem é o sortudo?

Eu gargalhei muito mais alto do que deveria. Não sei dizer se foi da ideia besta de que eu estaria assim por paixão ou se pela implicação de que, fosse o caso, era obviamente um garoto. Uma queimação involuntária pisou no fundo do meu estômago.

— Né nada não, pai. Só estou animada pra montar tudo e já pensando nas comidas, sabe?

Ele fez uma cara séria e segurou um riso. Com a certeza de que eu não tinha nada mais convincente para falar, desconversei. A gente não tinha muito papo, de qualquer forma. Por isso, falamos pouco durante o trajeto. Algumas palavras sobre o clima, a viagem desconfortável e um pequeno questionário sobre a casinha de Papai Noel do parque local e como ela havia sido queimada — de novo. Nada como conversar amenidades com um semiconhecido que, por um acaso, é seu pai.

Minha mãe estava nos esperando do lado de fora, sentada num banquinho baixo enquanto fofocava com a vizinha. Cada uma em sua porta, o tom de voz ora alto e ora baixo. Poucas coisas gritavam tanto “eu sou do interior” vibes quanto isso. Para o bem ou para o mal, eu estava em casa.

Quando me viu, ela se levantou às pressas e veio na minha direção com os braços abertos. Um afeto que sempre me soava meio estranho, mas era bem vindo. Beijou a minha testa e tirou a mochila das minhas costas. Ela cheirava a lar, e algo no contato da sua pele e no seu carinho me puxava para a terra com uma velocidade absurda. Colocava meus dois pés no chão e me fazia pensar em quanto tempo eu ainda tinha para aproveitar até que nossas crenças se tornassem incompatíveis.

Eu não fazia ideia. Não poderia saber. Então entrei, relembrando porque estava tão animada para visitá-los e decidida a ignorar qualquer minhoca que tentasse escalar minha garganta. Era Natal, e talvez eu pudesse ao menos me divertir.

Não consegui parar até o dia seguinte. Entre desfazer as malas, ajeitar meu antigo quarto e escutar as fofocas intermináveis que minha mãe queria contar, sobrou pouco tempo para qualquer outra coisa. Não é que eu tinha pressa, mas tinha muita curiosidade, então esperei um momento propício, com uma ausência estratégica do meu pai, e abordei o assunto com o devido cuidado:

— Então, mãe… — comecei, sem conseguir esconder o leve receio na minha voz.

— Ih… lá vem. — Ela sorriu.

— Cê lembra da Raíssa? — As palavras subiram queimando a minha garganta. Parecendo erradas em sua própria existência.

— Quem?

Suspirei.

— A do pré. Do colégio adventista.

Dona Laís abriu um sorriso enorme.

— Ah, claro que lembro. Menina boa demais — ela disse, animada. Sem querer, fiz uma careta. — Sumiu, né? Mudou de escola e sumiu.

Respirei fundo novamente antes de entrar de vez no assunto:

— Bom, reapareceu. Mas ela não se chama Raíssa. Agora é Liz.

— Uai, e pode isso de mudar de nome? Mudar pra quê?

— É que ela não é menina, mãe.

Minha mãe parou de bater a massa de bolo em cima da pia, virou para mim com as mãos na cintura e a cara séria.

— E se não é menina é o quê? Cada coisa, cada coisa. — Balançou a cabeça, a expressão irritada. — Onde já se viu, esses jovens se afastando de Deus, agora ninguém se impor…

— Mãe, por favor. 

— Cresce na igreja, na escola adventista, mas aí vai pro mundo e…

— MÃE!

Ficamos nos encarando, meu peito subindo e descendo com raiva, minhas mãos tremendo embaixo da mesa, agarrando com força as pernas da calça. Eu conseguia sentir pequenas lágrimas nos cantos dos meus olhos. Agora não.

— Ela apareceu, e somos amigas. E a senhora vai respeitar ela, que não custa nada. Não é deus que fala de amar o próximo?

— Muito conveniente, mocinha — ela falou, por fim, antes de se virar de volta para o bolo sobre a pia.

— Enfim, só quero saber onde estão nossos álbuns daquela época porque ela perdeu as fotos que tinha.

— Em cima do meu armário, junto com todos os outros. — Levantei da mesa automaticamente. — Não faz bagunça nas minhas coisas!

— Tá…

— E, filha! — ela gritou e eu parei, olhando de volta para ela. — Ao menos você ainda é uma boa menina, né?

Não respondi e voltei a caminhar na direção do quarto.

 

Vi: Achei, caralho!

Vi: Puta que pariu, como tem foto impressa nessa casa

Vi: Aposto que minha mãe sozinha sustentava as óticas dessa cidade tudo

 

Liz: CADÊ

Liz: Amanda as foto (de) agora

Vi: Meu deus que papo mais cishet, Liz

Liz: Me respeita, Violeta Aguiar!

Vi enviou 36 fotos

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Vi: Quer mais? Porque tem mais

Liz (áudio): Nem nos meus sonhos mais insanos eu pensei que ia recuperar tanta foto assim, puta merda

Liz (áudio): Aquela do seu aniversário na escola e você com aproximadamente 705 presilhas no cabelo!!! Ícone fashion hahaha

Liz (áudio): Vi, foi meu presente de Natal te reencontrar, eu tenho certeza absoluta

Liz (áudio): Eu não sabia que podia sentir tanta falta de alguém que conheci quando era só uma catarrenta (igual eu) e depois nunca mais vi

Fiquei ouvindo os áudios algumas vezes, sorrindo igual boba. A risada dela ecoava nos meus fones de ouvido e olhar para aquelas fotos enquanto a ouvia me trouxe algum tipo de nostalgia muito estranha, como se estivesse sentindo falta de algo que ainda nem aconteceu.

Vi: Também tô feliz de ter te (re)encontrado, Liz

Vi: Como dizem por aí, né, as coisas são quando têm que ser

Vi: Espero que esse seja só o (re)começo dessa amizade <3

Liz: Ainda temos muita besteira pra fazer. Pode marcar aí: 2016 foi o ano que a sua vida começou a mudar